Muitas pessoas têm a curiosidade em saber como é a adaptação em Singapura, principalmente, por ser um país tão distante do Brasil. Posso dizer que é necessário estar com a mente aberta para poder morar fora.
Embora muitas pessoas tenham a oportunidade de sair do Brasil, muitas vezes o medo as impede. Apesar de ter nascido no Brasil, isso não quer dizer que estou totalmente enraizada nele e que a cultura brasileira transborda em mim. Entretanto, onde nasci faz parte da construção de minha identidade.
Acredito que por ter uma personalidade introspectiva, que prefere o silêncio e o sossego de casa, ao longo da vida fui me identificando com outros aspectos culturais. Admiro a receptividade e alegria dos brasileiros no geral, mas nunca me vi assim.
Este artigo não é uma forma de ingratidão ou crítica, mas uma reflexão de como vejo por outro ângulo essa questão de pertencimento e acolhimento quando se mora fora do seu país de origem. O que penso é que é necessário ter resiliência e desapego para poder haver uma boa transição.
Uma breve analogia
Estava refletindo em como nós, seres racionais podemos nos sabotar. Quando há alguma mudança em nossas vidas e precisamos sentir o desconforto, nosso instinto é assumir a posição de defesa. Nossa vontade é que tudo fique do jeito que estava antes, mas sabemos que a vida é um processo dinâmico, com altos e baixos inevitáveis. Consequentemente, morar fora é um desses episódios que podem gerar um certo desconforto.

Dessa forma, nós temos que pensar no exemplo das plantas como uma lição de vida. Se você remover a planta cheia de raízes do seu vaso onde foi plantada e a colocar em um local completamente diferente, ela irá sobreviver. Somente é preciso dar as mínimas condições para sua sobrevivência, como água, luz e um vaso com terra ou um jardim. Seguindo esse raciocínio, eu penso que nosso elemento básico para sobrevivência fora do país é a resiliência e o desapego ao que foi deixado para trás.
Sua origem se transforma em boas lembranças
As lembranças afetivas, às vezes, aparecem quando você mora fora. Isso acontece principalmente quando um costume é muito diferente do seu país de origem. Por exemplo, sinto falta do arroz e feijão nas comidas de rua, da ausência dos salgadinhos e brigadeiro nas festas de aniversário. Ainda me parece estranho o “parabéns” no meio das festas de aniversário e não no final.
Sinto falta do calor humano e receptividade brasileiros. E principalmente, do idioma português com suas gírias e expressões que só fazem sentido para quem vive no Brasil. Além disso, mesmo falando o inglês, às vezes tento me expressar e a palavra não vem espontaneamente. Preciso fazer uma breve pesquisa ou, após alguns minutos, a palavra é resgatada do subconsciente. Por outro lado, não ter o Carnaval e as músicas típicas não me fazem falta, pois acho que somente o celebrava quando criança.
Em contrapartida, as comidas e músicas típicas das festas juninas trazem boas recordações, mas que podemos saná-las quando alguém traz um pacote de canjica e paçoca para matarmos as saudades, por exemplo. As festas de família e datas comemorativas também precisam ter ressignificação. Sua nova rede de apoio e amizades se transformam em sua nova família.
Entretanto, essas memórias não me deixam triste, e sim, me lembram de minha origem.

Pontos positivos na adaptação em Singapura
Me sinto bem em um local onde me sinto segura, e isso acontece aqui em Singapura. Não ter medo de pegar o celular, enquanto estou na rua ou andar de transporte público, sem estar sempre em alerta é uma sensação de liberdade que nunca deveríamos perder. As leis aqui são bem rígidas para as mínimas infrações e muito mais intransigentes para crimes graves.
Não estou entrando na questão moral das punições. Mas, me sinto segura do jeito que tudo funciona aqui. E quando se tem filhos, esse desejo por segurança aumenta mais ainda.
Aqui chove bastante, e dependendo da época do ano, são chuvas torrenciais, que no máximo, alagam pouquíssimas partes do país. O sistema de drenagem é tão bom que rapidamente não se vê por muito tempo as ruas alagadas. Portanto, me sinto acolhida e segura, o que foi essencial para uma boa adaptação em Singapura.
Alto custo de vida e longas jornadas de trabalho
Por outro lado, aqui o custo do aluguel é muito alto. Você precisa procurar as áreas mais distantes do país e as moradias mais populares para conseguir se sustentar com um emprego simples. Se você trabalha em uma loja de shopping, por exemplo, somente há 1 dia de folga na semana e sem direito a horário de almoço muitas vezes. Os vendedores almoçam no próprio estabelecimento e fazem várias funções ao mesmo tempo. Dessa forma, eles não costumam contratar várias pessoas para trabalhar em uma loja pequena.

No geral, a jornada de trabalho é em torno de 8 a 10 horas diárias. Em alguns casos pode se estender a 12 horas diárias. Consequentemente, se você possui uma família, precisa de suporte para dar conta da casa e dos filhos. Você precisa de uma babá ou alguém da família para te auxiliar. Geralmente, o que acontece aqui são os avós auxiliarem nos cuidados dos netos, enquanto os pais trabalham. Ter uma babá aqui possui um custo elevado também, como em qualquer parte do mundo.
Os alimentos também são caros e você precisa saber onde comprar para não gastar excessivamente. Neste artigo dou dicas de locais baratos para fazer compras de comidas e afins em Singapura. Comer fora todo dia, somente se for em um Hawker Center. Os restaurantes não são baratos e é mais econômico e saudável levar sua própria comida para o trabalho. Portanto, é preciso ter um bom emprego em Singapura para conseguir algumas regalias trabalhistas, como ter os fins de semana livres.
Alta competitividade
As crianças fazem múltiplas atividades após o horário escolar e você se sente um pouco de fora se seus filhos não as fazem também. Eles já preparam as crianças para um mercado de trabalho que somente enfrentarão daqui a uns 15 anos. E às vezes fico num dilema em como educar meus filhos, pois a pressão por excelência é grande, devido à competitividade do mercado.
E os pais asiáticos vão no mesmo caminho também. Quanto mais atividades seus filhos fazem, um futuro melhor os filhos terão. Até nos finais de semana as crianças fazem atividades, sobrando somente o período da tarde/noite para descanso.
Essa pressão ainda me assusta um pouco, mas faz parte da cultura oriental. Em parte é bom, pois se cria autonomia e responsabilidades desde cedo. Por outro lado, acho que um pouco da infância se perde neste aspecto.
Equilíbrio é a chave para uma boa adaptação em Singapura
Dessa forma, morar em Singapura é uma experiência única, pois é preciso balancear um pouco da cultura daqui com a brasileira em aspectos educativos, culturais e sentimentais. Sempre tive bastante resiliência e isso me ajudou e continua me ajudando na vida. Acho que todos que tiverem essa oportunidade não podem a deixar passar, pois te dá uma outra visão de mundo, e a busca pelo melhor para você e sua família.
About The Author
Alessandra Oliveira Ferrari
Casada e mãe de 2 filhos. Atualmente morando em Singapura. Já dei aulas de inglês por mais de 10 anos, o que me ajudou na adaptação no país. Formada em Odontologia, atuava na profissão antes de me mudar para Singapura.