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Cidadã do mundo: minha vida com três cidadanias

Última atualização do post:

cidadã do mundo três cidadanias: brasileira, italiana e britânica
Cidadã do Mundo – Imagem: Arquivo Pessoal

Segurar um passaporte novo nas mãos é sempre emocionante. Mas quando ele vem acompanhado da consciência de que agora você pertence oficialmente a três países diferentes… é algo quase indescritível.

Eu nasci no Brasil, herdei o sangue e a cidadania italiana dos meus bisavós e, recentemente, me tornei cidadã britânica depois de 17 anos vivendo no Reino Unido. Cada um desses documentos carrega muito mais do que direitos e carimbos de imigração: eles contam a minha história, falam de raízes, de escolhas e de sonhos que se transformaram em realidade.

Ter três cidadanias não é apenas um privilégio no papel — é uma jornada de vida feita de burocracias, celebrações, adaptações culturais e, acima de tudo, conexões humanas. É olhar para o mapa e perceber que o conceito de “lar” pode caber em mais de um lugar.

Hoje, quero compartilhar um pouco dessa trajetória e contar como é viver sendo, literalmente, uma cidadã do mundo (como minha mãe já me chamava, desde a minha adolescência, antes mesmo de qualquer aventura minha!). E, no final, já deixo o convite: no próximo artigo, vou explicar tim-tim por tim-tim como funciona o processo de cidadania britânica para brasileiros.

I. Raízes Brasileiras: Onde Tudo Começou

O Brasil foi meu primeiro endereço no mundo e o lugar onde aprendi as primeiras lições sobre vida, família e pertencimento. Cresci cercada pela energia vibrante da cultura brasileira: a música que embala nossas memórias (meus primeiros presentes para o meu sogro foram dois CDs: um de samba raiz, outro de MPB), a comida que reúne pessoas à mesa (as preferidas da minha família galesa são pão de queijo, brigadeiro e coxinha!), e a forma calorosa com que nos relacionamos com o outro — mesmo com quem acabamos de conhecer. Dessa brazuca aqui sempre tem um abraço!

Ser brasileira moldou não só minha personalidade, mas também a forma como eu enxergo o mundo. Foi no Brasil que aprendi a ser resiliente, criativa e a encontrar soluções mesmo nas situações mais desafiadoras. Essas qualidades me acompanharam em cada mudança de país e em cada etapa da minha vida como expatriada.

A cidadania brasileira também carrega um valor simbólico enorme: ela é a minha âncora. Por mais que eu tenha outros passaportes, é o passaporte azulzinho que me lembra de onde vim, das minhas raízes e da história que começou muito antes de eu sonhar em morar fora.

E talvez essa seja uma das partes mais bonitas de ter múltiplas nacionalidades: perceber que, mesmo vivendo em outros países, sempre levamos o Brasil dentro de nós — no sotaque, nas tradições e até na forma de sorrir para o mundo.

II. A Herança Italiana: O Chamado das Origens

Cidadania italiana
Cidadã italiana, finalmente! (À esquerda: Gy, da Buscando Sonhos; meio, eu; à direita, minha irmã, Cíntia. – Imagem: Arquivo Pessoal

Muito antes de eu nascer, uma parte da minha história já cruzava oceanos. Meus bisavós italianos deixaram sua terra natal em busca de novas oportunidades e fincaram raízes no Brasil. Entre malas, sonhos, medos, lembranças e receitas de família, eles me presentearam com o direito à cidadania italiana — que, décadas depois, se tornaria parte da minha identidade.

O processo de reconhecimento da cidadania italiana foi mais do que uma formalidade burocrática: foi uma viagem às minhas origens. Reunir documentos antigos, pesquisar certidões de nascimento e casamento em arquivos online (meu marido até me deu uma lupa de presente!), visitar o Museu da Imigração em São Paulo e em Gênova, e, finalmente, ver meu nome reconhecido oficialmente como cidadã italiana. Foi como receber um pedaço tangível da minha história.

Com essa cidadania, ganhei não apenas o direito de viver e trabalhar na União Europeia, mas também um passaporte para explorar minhas raízes mais de perto. Caminhar pelas ruas de cidades italianas, ouvir a melodia do idioma e sentir que, de certa forma, eu “pertenço” àquele lugar, sempre é uma experiência profundamente emocionante.

A cidadania italiana também me ensinou algo importante: as nossas histórias familiares têm um poder enorme de moldar quem somos hoje. É como se cada passaporte que carrego fosse uma camada extra de identidade — e o italiano, sem dúvida, é a camada que conecta passado e presente de forma mais direta.

III. A Nova Página: Tornando-me Britânica

A terceira cidadania da minha vida chegou de uma forma diferente: não herdada, mas conquistada. Depois de anos vivendo no Reino Unido, construindo minha vida no País de Gales e sendo casada com um britânico, chegou o momento (e a vontade) de dar um passo que, por muito tempo, mesmo já tendo direito, não me parecia tão importante/necessário — me tornar uma cidadã britânica. Os tempos estão mudando, as políticas (e os políticos) ao redor do mundo estão ficando meio “estranhos”, então, para garantir os meus direitos no país onde eu moro, decidi que era hora.

O processo não foi apenas sobre formulários, documentos e entrevistas (e muitas libras esterlinas!). Ele representou anos de adaptação, aprendizado e integração. Significou entender não só a língua, mas também as nuances culturais, os costumes, e até o humor peculiar britânico.

No dia da cerimônia, lembro de olhar ao redor e ver pessoas de todas as partes do mundo reunidas, cada uma com a sua própria história, mas todas ali pelo mesmo motivo: celebrar um novo capítulo. Fui chamada pelo meu nome, prestei o juramento de lealdade e, ao receber o certificado, senti uma mistura de orgulho, gratidão e alívio. (Confissão: moro no País de Gales, e confesso que foi o hino galês que fez meus olhos se encherem de lágrimas!)

Algumas semanas depois, o passaporte britânico chegou pelo correio. Ao segurá-lo, percebi que ele não substituía os outros dois que já tinha — ele se somava a eles. Era mais uma chave para abrir portas, mas também mais um símbolo da vida que construí longe de onde nasci. E mais responsabilidades!

Essa conquista foi, ao mesmo tempo, prática e profundamente emocional. Afinal, não é todo dia que você se torna oficialmente cidadã de três países diferentes.

IV. O Que Significa Ter Três Cidadanias

Cerimônia de naturalização cidadania britânica
Minha cerimônia de naturalização em Cardiff. À esquerda, o prefeito de Cardiff. À direita, um representante do Rei Charles III – Imagem: Arquivo Pessoal

Ter três cidadanias é, sem dúvida, um privilégio — mas também é muito mais do que um conjunto de direitos impressos em passaportes diferentes. É viver no cruzamento de culturas, tradições e formas de ver o mundo.

No lado prático, essa condição me dá liberdade para viver, trabalhar e estudar em diferentes partes do planeta. Com o passaporte italiano, tenho acesso facilitado aos países da União Europeia. O passaporte britânico me permite viajar para diversos destinos sem visto e participar da vida política do Reino Unido como eleitora. E com o brasileiro, mantenho meus direitos e laços no país onde nasci.

No lado emocional, as três cidadanias representam capítulos diferentes da minha história:

  • O Brasil é a base, as minhas raízes, o calor humano e o idioma do coração.
  • A Itália é a ligação com o passado, as origens e a herança cultural que atravessou gerações.
  • O Reino Unido é o presente e o futuro que escolhi construir, a vida que criei com o meu marido e a comunidade que agora também é minha.

Mas existe também um lado curioso: às vezes, a pergunta “de onde você é?” não tem uma resposta simples. A verdade é que eu sou de todos esses lugares — e, ao mesmo tempo, de nenhum em específico. Ser cidadã de três países me ensinou que “casa” não é apenas um ponto no mapa, mas sim onde você se sente acolhida, útil e conectada.

E, no fim das contas, ter múltiplas cidadanias não muda só a forma como o mundo me vê, mas também como eu me vejo: uma ponte entre culturas, alguém que pode pertencer a diferentes lugares sem precisar escolher apenas um.

V. Desafios e Curiosidades de Ser “Cidadã do Mundo”

Embora ter três cidadanias seja uma bênção, a vida multicultural também vem com seus desafios — e algumas situações bem engraçadas.

1. Burocracia multiplicada
Três passaportes significam três vezes mais atenção a prazos de validade, renovações e regras de cada país. 

2. Direitos e deveres diferentes
Cada país tem suas próprias obrigações. Por exemplo, votar no Brasil continua sendo obrigatório, mesmo morando fora — e isso exige organização para não perder prazos de recadastramento ou votação no consulado.

3. A pergunta inevitável: “De onde você é?”
Em aeroportos, eventos ou até em conversas informais, a pergunta vem. E eu já me acostumei a ver a confusão no rosto das pessoas quando respondo: “Depende… quer que eu fale por ordem de nascimento, de sangue ou de casamento?”.

4. Situações inusitadas em viagens
Já aconteceu de, em uma mesma viagem, usar um passaporte para entrar num país e outro para sair — e os agentes de imigração ficarem olhando para mim com aquela expressão de “como assim?”.

5. Identidade múltipla
Talvez o maior desafio seja interno: aprender a abraçar todas essas identidades sem sentir que preciso escolher apenas uma. A verdade é que cada cidadania me acrescenta algo e me faz olhar o mundo com lentes diferentes.

Apesar desses pontos, a sensação de liberdade e conexão global supera qualquer papelada extra ou momento de confusão. É como se eu carregasse, dentro da minha mala e do meu coração, um pedacinho de três mundos.

Viajando com malas e cachorro
Cidadãos do Mundo: Uma mulher e seu cachorro (Cookie) – Imagem: Arquivo Pessoal

Muito Além de um Passaporte

Ter três cidadanias é carregar no bolso mais do que documentos de viagem — é carregar histórias, raízes e futuros possíveis. É saber que a vida pode nos levar a diferentes destinos e que, em cada um deles, podemos construir laços, memórias e pertencimento.

O Brasil me deu a base, a Itália me conectou às origens e o Reino Unido me ofereceu um novo lar. Juntas, essas três nacionalidades contam a minha história: uma trajetória feita de mudanças, adaptações e, acima de tudo, coragem para abraçar o novo.

E, se existe algo que aprendi nesse caminho, é que cidadania é mais do que um status legal: é um símbolo de identidade, de integração e de como podemos ser, ao mesmo tempo, parte de diferentes lugares.

E agora?
Muita gente me pergunta como foi o processo para conquistar a cidadania britânica — e no próximo artigo vou compartilhar todos os detalhes: requisitos, etapas, custos e dicas para brasileiros que sonham em dar esse passo.

Até a próxima!

Um abraço, 

Dani

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Daniela Pescuma

Oi, eu sou a Dani — e acredito que escrever é como atravessar um portal para mundos que só nós podemos criar. Vivo no coração do País de Gales, cercada por lendas, castelos e jardins que inspiram histórias. A escrita sempre foi meu mapa e minha bússola — me guiou por mares agitados, me ajudou a encontrar minha voz e me mostrou que todo capítulo pode ser reescrito.Hoje, convido outras escritoras — de primeira viagem ou veteranas — a explorarem seu próprio jardim literário, cultivando inspiração, coragem e beleza em cada página, para que suas histórias floresçam e ganhem vida. Onde você pode saber mais sobre mim: www.danielapescuma.com (em inglês) e www.acasanapraia.com (português).

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