Como estabelecer um estilo pessoal na mudança de país? Apesar de já saber sobre o meu estilo quando imigrei em 2022, cheguei a Portugal em meados do outono e não sabia mais o que vestir além de casaco da Primark, jeans do Brasil e um tênis. Mudar para Portugal me forçou a desapegar do que já não cabia aqui, mas a consistência no guarda-roupa se tornou minha principal ferramenta para reconstruir a identidade em um novo país.
O Estilo pessoal na mala: o choque do contexto social
Eu morava no pé da areia, em uma cidade litorânea de clima totalmente tropical. O meu guarda-roupa era uma tradução literal do meu estilo de vida nessa época, baseado em cores em pontos estratégicos e materiais leves.
Primeiramente, eu sempre achei que “conforto e praticidade” eram coisas universais, mas foi só me mudar que percebi o quão “brasileira” era a minha definição. O meu conforto e praticidade de antes não se encaixavam aqui em Portugal.
De repente, não sabia mais o que vestir além de casaco da Primark, jeans e tênis. Mudar de estilo em cada foto, no começo, não era sinal de personalidade, era sinal de confusão. Eu me sentia apagada e sem identidade visual. A roupa é o primeiro código não verbal que enfrentamos, e a dificuldade em me reconhecer nela foi um reflexo direto do meu choque de estilo.

Nosso estilo é nossa voz
Uma mala, antes de mais nada, não é só sobre roupas e documentos, é também sobre bagagem cultural de estilo, com referências históricas e sociais. Nosso estilo não é só estética, é a nossa voz não dita. Além disso, o clima de um país pode impactar o seu estilo muito mais do que você imagina.
E não, não é só comprar roupas mais frescas ou mais quentes! É também entender a cultura do país, sobre suas emoções em determinadas ocasiões e, principalmente, sobre o novo. A necessidade de redescobrir a minha identidade visual num ambiente desconhecido deu, sem dúvida, um novo propósito ao meu guarda-roupa.
A evolução da identidade através do estilo pessoal
A roupa, para o imigrante, se torna uma ferramenta de identidade. Não é só estética. O meu estilo pessoal- sua essência básica, dramática e clássica – se manteve, mas a sua tradução para a nova realidade social e climática foi necessária.
O básico ganhou reforço em qualidade (segunda pele, jeans e t-shirt de algodão). Onde havia a leveza do tropical, entrou a durabilidade do inverno. No Brasil, eu gastava muito para manter um estilo sazonal; hoje, invisto em peças-chaves de longa duração. Essa mudança de prioridade é um ato de consumo consciente, impulsionado pela realidade de um novo clima e mercado.

Meu gosto pelo dramático precisou ser reelaborado. Se no Brasil ele estava em colares grandes, em Portugal migrou para anéis e terceiras peças poderosas, como o blazer oversized. Os anéis se tornaram o meu novo ponto de atenção e comunicação, visível mesmo sob camadas de roupa. Essa evolução do estilo é um reflexo direto do processo de adaptação e da necessidade de redefinição do eu, em um ambiente social desconhecido.
A consistência como ferramenta de estilo pessoal
A imigração me forçou a ser mais inteligente no consumo. Gasto menos em quantidade, mas invisto mais em qualidade em peças-chave de longa duração (botas, casacos).
Essa é uma lição que vale para todos: quando você escolhe e entende suas cores, modelagens e peças preferidas, você consegue criar um guarda-roupa mais consciente e com personalidade. Ter peças-chave facilita o dia a dia, e a repetição te faz ser lembrada. O meu estilo hoje é a repetição da minha essência (básico-dramático-clássico) em um novo contexto.
É nesse ponto que entra o meu segredo de vulnerabilidade controlada: confesso que eu tenho um “uniforme” para os dias em que não estou inspirada para me vestir. Uso aquele look que eu sei que funciona (calça jeans básica, t-shirts e blazer oversized) porque ele me dá a consistência necessária para encarar o dia.
Experimentar é se reencontrar
Talvez no começo você se sinta perdida e não se reconheça mais nas suas “roupas brasileiras”. Mas experimentar diversas modelagens, estilos e cores faz parte do processo de se reencontrar no novo país com um estilo que te represente. Em outro país, você pode descobrir características do seu estilo que nunca tiveram um espaço para existir antes.
E, no fim das contas, o estilo de uma expatriada não se baseia apenas em se encaixar, mas em se encontrar. Não significa apagar a sua identidade “antiga”, mas passa a ser honrá-la enquanto você constrói uma nova. O seu estilo é vivo, dinâmico, e ter esse autoconhecimento é o que te ajuda a lidar com toda a movimentação da vida em outro país.
Portanto, o vestir não precisa ser mais uma dor de cabeça, em um dia que já tem tantas adaptações para lidar. Ele pode ser a sua principal ferramenta de autoconfiança.
About The Author
Vitória Helena
Oi mundo, eu sou a Vitória Helena. Estrategista de Marca Pessoal e na constante busca em entender o “porquê” por trás do consumo. Caiçara de SP e a viver em Portugal desde 2022, eu analiso como o comportamento e a moda impactam o nosso dia a dia, traduzindo essas análises em práticas para quem busca um posicionamento real.
Acredito na comunicação leve que ensina e na imagem que sustenta a sua verdade. O meu foco é ajudar mulheres das áreas da Saúde, Wellness e Empresárias da Moda a construírem um posicionamento digital verdadeiro, transformando conhecimento em autoridade através de conteúdos únicos e intencionais.
Saiba mais sobre o meu trabalho em www.vitoriahelena.com.br
Respostas de 10
Me identifiquei muito com o texto, obrigada pela partilha 😍♥️
Obrigada Le! Espero que também goste dos próximos s2
Encontrar nosso estilo pode ser tão difícil as vezes. Achei valiosas as dicas, não só pra quem imigrou, mas também pra quem está nesse processo de auto-conhecimento, como eu!
Amei o texto!
Oi Gi, o nosso estilo é vivo e dinâmico e quando nos conhecemos esse processo se torna menos doloroso. Fico feliz que você conseguiu absorver as dicas do texto para a sua rotina. Até a próxima s2
Eu concordo 100% com tudo escrito. Quando me mudei do Brasil, perdi o meu estilo completamente, principalmente por morar em cidade litorânea, não me enxergava mais do mesmo jeito, foi preciso ter paciência comigo mesma para entender o caminho que agora seguia.
Parabéns pelo texto incrível, me fez refletir sobre essas questões, já estou ansiosa para o próximo post 🩷
Oie Gi, que legal saber que você como expatriada se identificou com o texto! Até a próxima s2
O artigo,revela um fato que não pertence só a autora mas existe em todo nós, no entanto através da leitura envolvente do texto , buscamos em nós mesmos a nossa identidade através de como nos vestimos, transcendo moda e griffes e revelando nossa essência. Ótima leitura leve e esclarecedora.
Oi oi! Muito bom quando lemos e nos envolvemos no texto a ponto de refletirmos, ne? Fico feliz que você tenha gostado! Até a próxima s2
Ótima publicação, meu estilo sempre foi um reflexo direto das minhas necessidades e do lugar onde moro , uma cidade quente do litoral do Brasil.
Jamais percebi o quanto isto era natural e verdadeiro.
Oi Rê! Que legal que você enxergou de outra perspectiva sobre o seu estilo! Até a próxima s2