A raiva é geralmente vista como vilã, como algo que não devemos sentir e muito menos expressar. Por ser quase um tabu, a nossa tendência é suprimir essa emoção, sentirmos culpa quando ela aparece e escondermos o que estamos sentindo. De fato, a raiva pode ser destrutiva quando não regulada, mas isso não quer dizer que ela não tenha que existir.
Entendendo a raiva
A raiva é uma das seis emoções inatas ao ser humano e, desta forma, não senti-la é algo impossível. Assim, como sentimos alegria, tristeza, medo, surpresa e nojo como emoções universais, a raiva também se encaixa nessa categoria, ou seja, você vai senti-la, mas pode saber direcioná-la e utilizá-la de forma mais proveitosa e produtiva.
Eu costumo dizer que, quando qualquer emoção nos pega de forma arrebatadora, ficamos com uma névoa na percepção das coisas, o que nos leva a agir por impulso, sem pesar as consequências dos nossos atos. E, falando especificamente da raiva, a situação é ainda mais delicada, porque geralmente está associada a comportamentos explosivos que machucam não só os outros, como a nós mesmos, gerando ressentimento e violência. Por isso, é tão importante sabermos regular as emoções e, nesse caso, usarmos a raiva de forma saudável. Sim, ela pode ser algo saudável!
Raiva destrutiva
Acessos de raiva… quem nunca viu ou sentiu? Na verdade, infelizmente, temos testemunhado inúmeras situações de raiva destrutiva atualmente. Violência no trânsito, contra a mulher, entre crianças, entre famílias, por discordâncias em qualquer esfera. A raiva destrutiva está intimamente ligada a muitos casos de violência no mundo. Estima-se que mais de um milhão de pessoas morrem em decorrência de violência no mundo como você pode ler neste link.
Isso sem falar dos casos de ferimentos não fatais, traumas psicológicos e impactos sociais. Nenhuma dessas violências começam sem a raiva. Ela é um verdadeiro motor de destruição quando não regulada e, além da violência em si, pode também ser a causadora de uma vida insatisfatória, quando a pessoa está sempre amargurada, em constante estado de reclamação e não aceitação daquilo que é diferente ao que ela pensa e sente.
A raiva destrutiva pode parecer uma boa vingança, mas, no fundo, não atinge apenas o outro — também corrói você por dentro. Trata-se de uma perda de controle, muitas vezes involuntária, já que pode estar associada a alguns transtornos mentais.
A exemplo disso, há o TEI (Transtorno Explosivo Intermitente), Transtorno de Personalidade Borderline, Transtorno de Personalidade Antissocial, Transtorno de Personalidade Narcisista e o TOD (Transtorno Opositor Desafiador). Este último, comum em crianças e adolescentes. Seja em algum transtorno ou em pessoas com características de comportamentos raivosos, a terapia é uma saída muito boa para aprendermos a regular essa emoção e ter uma vida mais equilibrada e com menos danos.
Raiva funcional

Sentimos raiva desde a época das cavernas. Se não fosse a raiva e o medo, talvez não estaríamos aqui hoje. Era preciso ter essas emoções para proteger nossa família, nosso alimento, a caça, nosso abrigo etc. A raiva funciona como um alerta interno, que nos direciona no que fazer, onde precisamos agir. Ela indica que algo não está certo, talvez uma injustiça, invasão de limites ou algum acontecimento que fere nossos valores e então precisamos nos defender.
Tem toda uma lógica para ela manifestar-se, não é mesmo ? Então, vamos desmistificar a ideia de que a raiva é apenas algo ruim, pois ela também pode nos salvar. O que precisamos aprimorar é a forma de canalizar essa emoção para que, em vez de perder a cabeça, possamos usá-la a nosso favor.
A raiva funcional ou saudável é aquela que reconhecemos e expressamos com clareza e sem violência. É quando nos posicionamos em um conflito de forma assertiva, falando sobre o que nos incomoda, ao invés de interiorizarmos e posteriormente, explodirmos em algum momento. Mas, eu sei que é difícil agir assertivamente quando a raiva está nos dominando em determinado momento, e é por isso, que o melhor é não agir imediatamente, se você ainda não consegue regular a emoção.
Além disso, é uma saída estratégica, respirar um pouco e baixar a tensão. É produtivo de se fazer, e assim, com a mente mais calma, direcionar os esforços para resolver a questão. A raiva saudável pode ser uma baita motivação para alguma mudança na vida, além de reforçar nossa autoestima, já que passamos a colocar limites para os outros e a nos sentirmos mais fortes.
Dicas importantes

Quer regular a raiva? Te conto algumas dicas que, se bem trabalhadas, irão diminuir seu comportamento impulsivo e mudar suas respostas frente ao que antes te deixava furioso :
- Preste atenção nos seus gatilhos e já fique mais consciente quando esse sentimento desperta. Ser consciente é o primeiro passo;
- Respire profundamente por alguns minutos. Isso oxigena seu cérebro e atua como uma pausa para você agir e não apenas reagir;
- Se puder, se afaste da situação até entender que está pronto para argumentar;
- Exercite falar sobre o que incomoda, em vez de guardar ou explodir;
- Ao invés de acusar quem te gera raiva, use expressões como “eu me sinto assim quando você faz isso”;
- Exercícios físicos são excelentes eliminadores de raiva;
- Busque o que está por trás da raiva destrutiva. Algum trauma ou situação que te trouxe tristeza, medo e/ou frustrações, pode ser a chave para entender melhor e fazer uma autoanálise;
- Evite sempre culpabilizar os outros pelas suas emoções. Autorresponsabilidade é fundamental.
Espero que a leitura tenha sido proveitosa não só para você, mas também, como direcionamento para suas crianças, familiares e amigos. O conhecimento cura e nos direciona para uma vida de mais bem-estar. Se, enquanto adultos sabemos regular nossas emoções, seremos capazes de também ensinarmos as novas gerações e isso é fundamental para o mundo de amanhã com mais tolerância e responsabilidade. Até breve!
About The Author
Renata Castro
Psicóloga clínica, especializada em Terapia Cognitiva Comportamental, carioca, mãe de 2 amores de 4 patas.
Deixei meu consultório no Rio de Janeiro e vim morar na Capital da Croácia, Zagreb.
Hoje atuo com atendimentos online.