Hoje, como mãe empreendedora, eu escrevo de portas fechadas, enquanto ouço, do outro lado, o meu filho chamar por mim. A voz dele ecoa entre risos e choros, enquanto o meu marido tenta distraí-lo para que eu consiga finalmente escrever este texto — que vem sendo elaborado dentro de mim há mais de um mês. E talvez não houvesse momento mais simbólico para falar sobre a maternidade atípica e seus altos e baixos do que este; em que o caos e o amor se misturam tão de perto.
Minha maternidade atípica
Sou mãe atípica há seis anos. E, honestamente, esta fase que vivemos agora está facilmente no TOP 3 das mais desafiadoras até aqui. Já são quase dois meses de readaptação escolar — e se esse processo já é intenso para qualquer criança, para uma neuroatípica, ele se multiplica.
Vivo em Portugal há vinte anos e, há pouco mais de um ano mudei-me para o Porto. No último ano, o Vítor fez o primeiro ano letivo completo e correu tudo bem, porém este ano tudo mudou. Os amigos mais próximos saíram da escola, a auxiliar foi substituída, metade da turma é nova e com crianças menores. Consequentemente, meu filho teve crises intensas, noites mal dormidas, choros incontroláveis e hipersensibilidade sensorial à flor da pele.
Além disso, precisei reajustar minha agenda, abrir mão de compromissos, recusar projetos e reorganizar prioridades. E é aí que entra o ponto mais profundo deste texto.
Quando a mãe empreendedora precisa abrir mão de sua profissão

Quem é mãe sabe o quanto a culpa vem rápido. As vozes internas aparecem em coro: “você está improdutiva”; “está ficando para trás”; “outras mulheres estão avançando e você está parada.”
E, de repente, o que era uma pausa necessária para cuidar do filho, transforma-se num campo de batalha interno.
Como empreendedora, abrir mão de trabalhos significa também abrir mão de rendimentos e, muitas vezes, de segurança. Mas percebi que não existe sucesso profissional que compense o desamparo de um filho — e, ainda assim, foi preciso coragem para assumir isso sem me culpar.
É uma dança delicada entre o que o coração pede e o que a mente insiste em cobrar. E, nesse vaivém, fui obrigada a revisitar partes de mim que há muito eu acreditava já ter curado.
As armadilhas internas e o exercício da autocompaixão
Em primeiro lugar, durante minha jornada de autoconhecimento, percebi o quanto eu era perfeccionista e dura comigo mesma. Queria ser a mãe perfeita, a empreendedora exemplar, a mulher que dá conta de tudo. Mas o tempo, a vida e a maternidade me ensinaram que a perfeição é uma miragem.
Essas vozes críticas não desaparecem com o tempo. Elas continuam lá, mas hoje aprendi a ouvi-las sem obedecer. Aprendi que elas são apenas o eco de antigas crenças, e que podemos transformá-las em bússolas, não em prisões.
Há dias em que “surfo” essas ondas com leveza — quase sem me molhar. Em outros, engulo água, me engasgo e preciso recomeçar. Mas, em todos eles, sigo aprendendo.
Com isso, autoconhecimento e inteligência emocional não significam viver sem dor ou sem gatilhos. Significam ter coragem de olhar para o que dói, enfrentar o espelho com honestidade e entender o que ainda pode ser curado.
A esperança que nasce da aceitação

Há uma beleza silenciosa em aceitar que não precisamos ser fortes o tempo todo. Que às vezes ser forte é justamente permitir-se parar, chorar, respirar e pedir ajuda.
Além disso, cada fase desafiadora — como esta que vivo agora — é um convite para o crescimento. E talvez, o maior presente da maternidade atípica seja esse: aprender a viver em constante reinvenção, em ciclos de entrega, amor e recomeço.
Hoje, ao olhar para o Vítor vejo que ele não precisa de uma mãe perfeita — ele precisa de uma mãe presente, disponível e humana. E isso é algo que eu posso ser, mesmo quando o mundo parece me cobrar o contrário.
Uma mensagem para você, mãe empreendedora brasileira que vive fora
Talvez você esteja lendo este texto de outro país, entre fusos horários, saudades e recomeços. Talvez esteja tentando equilibrar a maternidade com o trabalho, a casa com a solidão, a coragem com a culpa.
E eu quero te dizer: você não está sozinha. Mesmo longe, há um fio invisível que nos une — o de sermos mulheres que, todos os dias, fazem o melhor que podem com o que têm.
Nem sempre conseguimos dar conta de tudo, e está tudo bem. Portanto, a força está em continuar acreditando — mesmo nas fases mais turbulentas — pois há sempre uma nova versão nascendo de nós mesmas.
E é nessa esperança, delicada e real, que seguimos juntas.
About The Author
Tânia Sampaio
Sou Tânia Sampaio, tenho 39 anos, vivo em Portugal há 20 anos. Sou mulher, cristã, esposa do Arlindo, mãe atípica de um menino lindo de 6 anos, o Vitor, que veio me ensinar a ver o mundo por uma nova perspectiva.
Cada vez mais decido viver uma vida leve, conectada com a minha essência, me livrando de necessidades de atender expectativas de quem não vive minha vida.
Profissionalmente sou master coach, business coach, mentora de empreendedoras, analista de perfil comportamental. Experiência em liderança em venda e gestão de pessoas.
Sou treinadora e palestrante e junto com meu marido temos um projeto chamado Desperta Empreendedor, onde treinamos empreendedores em dupla estratégia: estratégia de negócios e estratégia emocional com o intuito de despertarem o seu próximo nível, seja ele qual for.
Toda a minha vida laboral foi aqui em Portugal e já passei por várias profissões diferentes, desde copeira até assistente dentária. Aprendi muito por aqui e amo esta terra!
É um prazer para mim estar aqui escrevendo para você e partilhando um pouco das minhas experiências e vivências. Espero que a minha história te inspire. Conte comigo.