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Entre duas culturas- o medo de criar um filho

Última atualização do post:

A difícil tarefa de educar um filho num país diferente do seu.
Um filho, um mundo.

Mudar de país é aprender a viver com pequenas adaptações diárias. O clima é diferente, a comida muda, as estações trocam de lugar no calendário. Mas existe uma adaptação que ninguém ensina antes de embarcar: a construção da identidade dos filhos entre duas culturas.

Tenho ouvido muitas pessoas confidenciarem ultimamente que, com a mudança (busca de oportunidades, experiências, crescimento) vem juntamente o sentimento de não se sentir mais pertencente a lugar nenhum. Nem completamente brasileiro, nem completamente do país onde mora.

E quando se imagina isso para os seus filhos, o medo se torna mais real. “Quem eles vão se tornar entre duas culturas?” E não saber responder essa pergunta, dói.

Recentemente, vimos um medalhista de ouro nas Olimpíadas de Inverno, Lucas Pinheiro, que tem a mãe brasileira e o pai norueguês, em entrevista falar que é fruto de duas culturas diferentes, e que esse é o seu “superpoder”, veja entrevista aqui.

E aquilo me fez pensar: identidade não é escolher um lado. É integrar histórias.

Ser multicultural é carregar uma grande bagagem de histórias entre duas ou mais culturas.
Superpoder é ser multicultural – Imagem: Pexels

Identidade não nasce pronta, precisa de cultivo.

A criança que cresce fora do Brasil vive imersa na língua dominante: a da escola, dos amigos, dos desenhos, da sociedade. É natural que essa língua ganhe força. Ela precisa dela para pertencer.

Mas e a língua da família, o português, aquela que carrega não apenas um código linguístico (o que não é fácil de transmitir, e por isso muitas famílias desistem), ela traz em si algo diferente e especial. Ela carrega memória.

Mas quando o português vai ficando menor dentro de casa, não é só o vocabulário que diminui. É o acesso a uma parte da própria história. E não estou dizendo isso para gerar culpa em ninguém, estou dizendo para gerar consciência, porque a identidade bilíngue não acontece por acaso.

Entretanto, ela é construída nos pequenos gestos, nas conversas do dia a dia, nas histórias antes de dormir, nas músicas cantadas no carro. E como fazer isso? São muitos caminhos a percorrer, mas tenho muitas dicas nos meus textos aqui no blog.

A falsa ideia de que a criança precisa escolher

Existe uma crença silenciosa de que, para se adaptar bem, a criança precisa ser “mais daqui” do que “de lá”, como se fortalecer o português atrapalhasse a integração.

Mas as pesquisas sobre bilinguismo mostram o contrário. Crianças que mantêm duas línguas desenvolvem maior flexibilidade cognitiva, melhor capacidade de alternar entre tarefas e uma percepção mais ampla do mundo.

E além da ciência, por aqui existe a experiência.

Quando a criança sente que pode ser brasileira e, ao mesmo tempo, pertencer ao país onde vive, ela cresce mais segura. Ela não precisa esconder uma parte de si para ser aceita na outra.

Tenho alunos que, quando perguntados sobre qual lugar é mais especial para eles, respondem sem titubear: o Brasil. E isso sempre me chama a atenção. Vemos o quanto todas as experiências aqui vividas, as pessoas especiais que aqui estão, e toda a afetividade construída nas férias, nas visitas aos avós, nas conversas à mesa, nas brincadeiras simples… deixam marcas profundas.

Mesmo vivendo fora, é como se uma parte da identidade deles estivesse ancorada nessas memórias.

E isso nos mostra algo muito importante: a criança não precisa escolher um lado. Ela reconhece onde sente vínculo. E, muitas vezes, esse vínculo está diretamente ligado à língua em que essas experiências foram vividas. O medalhista olímpico não precisou apagar suas origens para brilhar. Ele integrou suas duas histórias.

Nossos filhos também podem.

A mãe como ponte entre duas culturas

Suas raízes sempre serão no local onde nasceu, apesar de viver em outro país.
O mundo é sua casa, mas o coração tem as cores do Brasil – Imagem: Pexels

Manter o português não é sobre forçar. É sobre oferecer espaço.

Se a língua aparece apenas como correção ou cobrança, a criança tende a resistir. Mas quando ela surge como afeto, brincadeira, música, história compartilhada, ela se torna parte da experiência.

A criança não quer se sentir dividida. Ela quer se sentir autorizada a ser múltipla. Como diz Loris Mallaguzzi – psicólogo e pedagogo italiano – a criança tem cem linguagens, mas roubam-lhe 99.

E aqui está um ponto importante: fora do Brasil, o português não se mantém sozinho. Ele precisa de intenção, de presença, precisa de apoio, precisa de você Mãe. E eu não digo isso para colocar um peso sobre você. Não é mais um fardo na lista infinita de responsabilidades que já carrega. É um alerta carinhoso: você é a principal referência linguística do seu filho. É na sua voz, no seu jeito de falar que ele encontra segurança.

Mas isso não significa que você precise dar conta de tudo sozinha. Buscar apoio, orientação ou acompanhamento não diminui seu papel. Porque ser ponte não é carregar tudo nos ombros, é mais sobre garantir que o caminho exista.

Ser ponte significa ajudar o filho a entender que ele pode carregar duas culturas sem perder nenhuma delas.

Filhos inteiros entre duas culturas

Talvez o maior desejo, como mães expatriadas, seja que os filhos cresçam inteiros. Que não precisem escolher qual parte da história vale mais. Que consigam olhar para suas duas culturas com orgulho.

A língua tem um papel silencioso e poderoso nisso. Ela conecta, explica, acolhe.

Não se trata de competir com a língua dominante. Trata-se de garantir que o português continue sendo um lugar seguro, um espaço onde a criança reconhece quem é.

Identidade não é metade. É soma.

E, no final das contas, talvez o nosso papel não seja decidir quem eles serão, mas oferecer ferramentas para que se sintam completos, onde quer que estejam.

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