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Estamos discutindo tudo, menos o ensino dos nossos filhos…

Última atualização do post:

Estamos discutindo tudo, menos quem educa nossos filhos.
Estamos discutindo tudo, menos quem educa nossos filhos

Sou professora e trabalho na Inglaterra e percebo cada vez mais que estamos discutindo tudo, menos o ensino dos nossos filhos. Todos os dias, ao entrar em uma escola, tenho a sensação de que estou observando algo muito maior do que uma rotina de aulas, horários e planejamentos. O que acontece — ou deixa de acontecer — dentro das salas de aula hoje moldará diretamente o futuro das nossas crianças e, por consequência, das nossas sociedades.

Ensino dos nossos filhos em segundo plano

Fora dos muros escolares, a educação parece ter sido empurrada para o segundo plano. Discutimos política, economia, redes sociais, ideologias e polêmicas do dia. Além disso, brigamos por temas que rendem likes e manchetes, mas quase não falamos sobre quem está, de fato, cuidando da educação das nossas crianças todos os dias.

Entretanto, essa angústia não nasce apenas da minha experiência profissional. Ela é confirmada por dados, relatórios internacionais e reportagens recentes que apontam para uma crise silenciosa e estrutural: o número de professores disponíveis tende a diminuir, porque a formação de novos docentes está estagnada ou cresce muito lentamente. Enquanto isso, o número de professores que abandonam a carreira aumenta de forma consistente.

Crianças gostam de rotina e não é bom para elas uma mudança constante de professores durante o ano.
Crianças em sala de aula – Imagem: Canva

Crise no ensino vai além da sala de aula

Mesmo com a queda das taxas de natalidade, as crianças continuam nascendo em números expressivos. Em 2023, estima-se que cerca de 2,6 milhões de bebês nasceram no Brasil, aproximadamente 590 mil no Reino Unido e 3,6 milhões na União Europeia. Ou seja, continuam chegando milhões de crianças que precisarão de escolas, salas de aula e adultos preparados para ensiná-las. A demanda por educação não desapareceu. O problema é que a oferta de professores em condições reais de permanecer na profissão não acompanha essa realidade.

Em contrapartida, na Europa, a formação de professores não cresce no ritmo necessário. Anualmente, a União Europeia forma entre 350 e 380 mil professores para atuar com crianças e jovens. No Reino Unido, esse número permanece praticamente estagnado há anos, em torno de 65 a 70 mil novos professores por ano. Ao mesmo tempo, professores estão deixando a sala de aula. Relatórios internacionais indicam que, em países europeus, entre 5% e 8% dos professores abandonam a docência todos os anos.

Em alguns contextos, especialmente após a pandemia, esse percentual ultrapassa 10% ao ano. Quando olhamos para esse movimento ao longo de uma década, falamos de milhões de profissionais que saíram da profissão não apenas por aposentadoria, mas por exaustão, adoecimento emocional e falta de condições mínimas para permanecer.

Esses números ganham rosto dentro das escolas. A consequência não é apenas o cansaço dos adultos. É a instabilidade para as crianças. Falta continuidade, falta vínculo, falta previsibilidade. E crianças tem menor aprendizado quando o adulto de referência muda o tempo todo.

Há muitos professores que se formam por ensino à distância, não tendo a devida experiência necessária de sala de aula para começar a lecionar.
Imagem: Número de formandos (professores) – design Isabella Martins
Fontes: Eurostat – Graduados em Educação (ISCED-F 2013: F011)
INEP – Censo da Educação Superior (Pedagogia – Licenciatura)

Formamos menos professores do que o sistema precisa

No Brasil, à primeira vista, o cenário pode parecer diferente. A Pedagogia é o curso com maior número de formados no país, somando mais de 1,8 milhão de concluintes nos últimos anos. Isso pode dar a impressão de que estamos formando professores “de sobra”. Mas quem é mãe ou pai sabe: número não conta a história toda.

Dessa forma, a Pedagogia é usada como referência porque não existe um dado específico que isole professores da Educação Infantil ou dos primeiros anos. Além disso, grande parte desses formados vem do setor privado e, cada vez mais, do ensino a distância. Na prática, isso significa muitos professores chegando às escolas com pouca vivência real de sala de aula, pouco acompanhamento e pouco apoio emocional para lidar com a realidade cotidiana do ensino.

Os dados confirmam: professores estão deixando a docência

Estudos nacionais indicam que entre 40% e 50% dos professores brasileiros deixam a docência nos primeiros cinco anos de carreira. Cerca de 80% já pensaram seriamente em desistir da profissão. Estimativas apontam que entre 70 e 110 mil professores deixam a sala de aula todos os anos no Brasil. Ao longo de uma década, isso representa centenas de milhares de profissionais que saem silenciosamente das escolas.

Essa não é uma crise local. A UNESCO alerta que o mundo precisará de 44 milhões de professores até 2030, sendo mais da metade apenas para substituir aqueles que estão deixando a profissão. O recado é claro: não se trata apenas de formar mais professores, mas de criar condições reais para que eles permaneçam.

A crise na educação está atrelada às más condições de trabalho destes profissionais, que os levam a abandonar a docência.
Gráfico ilustrativo de tendência, com base em relatórios oficiais- design Isabella Martins
Desistência de professores.
Fonte: OCDE (Education at a Glance); UNESCO; Office for National Statistics (UK); National Education Union; INEP.

E quem sente isso primeiro são as crianças. Crianças que trocam de professor várias vezes no ano, criam o vínculo e logo o perdem. Crianças que percebem o cansaço, a pressa e a falta de tempo — mesmo quando não sabem explicar. Ensinar hoje não é apenas ensinar letras e números. O professor ajuda a regular emoções, a resolver conflitos, a ensinar empatia e a oferecer segurança. Adicionalmente, a criança aprende melhor quando se sente segura, quando sabe quem estará ali amanhã, quando sente que aquele adulto tem tempo e energia para olhar para ela.

Por que essa crise no ensino dos nossos filhos não gera urgência social?

O mais preocupante é que essa crise acontece de forma silenciosa. Não vira escândalo. Não gera protestos imediatos, porém seus efeitos aparecem aos poucos: dificuldades de aprendizagem, mais problemas emocionais, menos prazer em aprender.

E, mais tarde, tornam-se adolescentes e adultos com lacunas que poderiam ter sido evitadas. Talvez o mais inquietante seja perceber que essa crise não mobiliza a sociedade com a urgência que deveria. Discutimos tudo, menos o essencial. Educação deveria ser um consenso básico. Investir em professores não é luxo, nem pauta ideológica. É necessidade estrutural.

Escrevo este texto como professora e como mãe. Contudo, meu intuito não é gerar medo, mas consciência. Porque, no fim das contas, não estamos falando apenas de números, gráficos ou políticas públicas. Estamos falando dos nossos filhos.

Portanto, fica a pergunta que talvez precise ser feita com mais honestidade: nós, pais, já percebemos o que está acontecendo dentro das escolas? Já paramos para pensar quem estará ali, todos os dias, cuidando do ensino dos nossos filhos e os sustentando emocionalmente no futuro?

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Isabella Martins

Ola! Meu nome é Isabella Martins e trabalho como Orientadora parental e como professora de educação infantil em Londres. Tenho três filhos adolescentes e moro fora do Brasil há dez anos. Já morei em Londres, Arábia Saudita, Singapura e agora retornei para Londres. Tenho a oportunidade de conhecer diversas culturas e o impacto delas na educação dos meus filhos e alunos. Sou apaixonada por educação e adoro explicar as etapas do desenvolvimento infantil. Faço atendimentos online em Português e Inglês. Acredito que criar relações de afeto melhoram as dinâmicas familiares e permite que tenhamos um lar onde a base seja o amor entre pais e filhos. Siga meu Instagram para mais informações: @isabellagmartins03 Vamos juntas?

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