Entre o desapego estratégico e a curadoria de identidade, a Geração Z lidera o consumo no mercado de luxo de segunda mão, deixando de ser alternativa para se tornar o novo padrão de consumo consciente.
Entrar num pequeno brechó numa ruela pelas cidades da Europa ou abrir o aplicativo da Vinted enquanto se toma um café em Lisboa,? Essa já não é apenas uma forma de economizar, é um manifesto de estilo e um movimento político (não tão) silencioso.
Houve um tempo em que o “usado” carregava um estigma de necessidade ou de algo apenas “velho”. Hoje, ele carrega moda, curadoria e consciência.
Enquanto o mundo tenta equilibrar a balança entre o desejo de consumo e a urgência do planeta, o mercado de luxo e a moda de segunda mão deixaram de ser o “plano B” para se tornarem os protagonistas do novo guarda-roupa global.
A solução da Geração Z para o elevado custo de vida
A crise do custo de vida e a instabilidade financeira global não alteraram apenas os nossos orçamentos, eles redesenharam a nossa cultura de consumo.
Simultaneamente, o mercado second-hand transformou-se numa potência econômica, que cresce três vezes mais depressa do que o comércio varejista de produtos novos.
E no centro desta revolução está a Geração Z, que trocou o “status no luxo” pela “liberdade através da consciência”, transformando o ato de garimpar na forma mais inteligente de aceder a marcas de renome por uma fração do preço original.
Um mercado em aceleração
Os dados confirmam que não estamos perante uma tendência passageira, mas sim uma mudança estrutural. Com uma taxa média de crescimento anual de 10%, segundo o BCG, o setor de segunda mão está a redesenhar as prateleiras globais.
Segundo um relatório recente da mesma instituição, BCG para a Vestiaire Collective, realizado com 7.800 utilizadores em 70 países, este setor poderá gerar 360 bilhões de dólares até 2030. Esse é um salto impressionante face aos 220 bilhões atuais.
Por exemplo, um dado interessante dessa pesquisa mostra que, entre os utilizadores mais ativos, quase um terço do seu guarda-roupa já é composto por peças de segunda mão.

Geração Z
Diferentemente das gerações anteriores, a Geração Z tem uma relação radicalmente distinta com os bens materiais. Eles foram os responsáveis por virar a chave ao combinar dois movimentos urgentes: a sobrevivência econômica e a consciência ambiental.
Com isso, para este público, o second-hand é um estilo de vida ligado à originalidade e à consciência coletiva.
E mais, eles priorizam a experiência, a originalidade, a flexibilidade e, acima de tudo, o respeito à Terra. Para a Gen Z, não existe “luxo pelo luxo”, ele preza muito mais a identidade do que o status.
Do mesmo modo, eles veem a roupa como um “ativo” que pode dizer sem palavras quem eles são, e não como uma posse de estética e poder.
Além do que, ter uma peça exclusiva de uma coleção de dez anos atrás, encontrada num garimpo, vale muito mais do que a última tendência lançada no TikTok, que todos estão usando ao mesmo tempo.
A psicologia do garimpo: por que compramos?
Entender a ascensão desse mercado exige olhar para além do preço e observar um pouco mais na psicologia da decisão.
Embora o preço continue a ser o motor inicial para 80% dos consumidores – afinal, em tempos de inflação, o custo-benefício é a porta de entrada inevitável – o que realmente nos mantém neste ecossistema é algo muito mais visceral.
Em outras palavras, a busca pela exclusividade motiva 55% dos utilizadores que desejam aceder a itens raros que o comércio convencional já não oferece.
A caça ao tesouro
Entretanto, o que vicia mesmo é a experiência. Para metade dos entrevistados, a “emoção da caça” e a dopamina liberada ao encontrar um achado raro entre milhares de peças é o que torna o processo prazeroso e emocionante.
Afinal de contas, se você já achou uma peça “UAU” em brechós, sabe bem do que estamos falando, não é mesmo ? Eu, por exemplo, ainda tenho a esperança de encontrar uma peça Chanel perdida nesses brechós e feiras pela Europa (que Nossa Senhora das Comprinhas me ajude!).
Para além do prazer, o fator ético-ambiental, como o volume de lixo produzido pela indústria têxtil, influencia 40% dos entrevistados. Tenho observado claramente a transição do consumo por impulso, para uma curadoria de identidade.

O Vintage é sempre atual
As apaixonadas por moda e filmes clássicos da indústria internacional sabem que a Europa tem uma forte presença dos brechós vintages e de luxo. Principalmente quando falamos de Paris, na França, essa tendência se tornou um sinal de sofisticação e de um olhar apurado que sabe separar o joio do trigo.
Adicionalmente, para quem mora por aqui, a adaptação às compras de segunda mão acontece de forma natural e rápida. Isso é devido a presença de brechós, feiras de antiguidades e aplicativos.

O app de second- hand queridinho da Europa
Minha vivência com este mercado mudou completamente com a descoberta da Vinted. O aplicativo é, para mim, o maior exemplo de como a tecnologia pode servir à economia circular.
Primordialmente, ele retirou as barreiras físicas do brechó, criando um ecossistema fluido onde vendemos o que já cumpriu o seu ciclo para financiar novos desejos.
Dessa forma, o app vai muito além da moda, possibilitando também a venda de itens de decoração e eletrodomésticos.
Além disso, quando buscamos por marcas de alto padrão e luxo, contamos com uma curadoria de verificação de peças, garantindo uma transação segura e transparente entre as partes.
O garimpo como curadoria de identidade da Geração Z
Eu considero o ato de garimpar como um exercício de curadoria pessoal. Ele força-nos a explorar a nossa personalidade e a inventar combinações únicas que não estão prontas nas vitrines de um shopping. Esse ato possibilita-nos (re)descobrir o nosso estilo e a forma como nos comunicamos através da imagem.
Portanto, o primeiro contato com o mercado de second-hand acontece, na maioria das vezes, pela busca de preços mais baixos. Mas, ao entrar em contato com este mundo de possibilidades, a mudança de comportamento acontece de forma natural, gerando um impacto real em todos os aspectos da vida.
O mercado de segunda mão não é sobre o que é “velho”, é sobre o que é valioso, autêntico e, acima de tudo, sustentável para o futuro da indústria e para a sua própria identidade.
E você, já se rendeu a esse movimento? Qual foi o garimpo que te fez sentir totalmente você?
About The Author
Vitória Helena
Oi mundo, eu sou a Vitória Helena. Estrategista de Marca Pessoal e na constante busca em entender o “porquê” por trás do consumo. Caiçara de SP e a viver em Portugal desde 2022, eu analiso como o comportamento e a moda impactam o nosso dia a dia, traduzindo essas análises em práticas para quem busca um posicionamento real.
Acredito na comunicação leve que ensina e na imagem que sustenta a sua verdade. O meu foco é ajudar mulheres das áreas da Saúde, Wellness e Empresárias da Moda a construírem um posicionamento digital verdadeiro, transformando conhecimento em autoridade através de conteúdos únicos e intencionais.
Saiba mais sobre o meu trabalho em www.vitoriahelena.com.br