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Identidade e multiculturalidade: os desafios de quem vive fora

Última atualização do post:

Para me tornar mexicana, teria que jurar a bandeira do país.
Se eu optasse por me nacionalizar mexicana teria que jurar a bandeira do país - Imagem: Pixabay

Para quem vive uma experiência migratória — especialmente prolongada e/ ou permanente — surge um dilema profundo: como manter a própria identidade em meio à multiculturalidade?

Vivemos em um mundo onde as fronteiras geográficas já não delimitam a experiência de vida das pessoas como antes. A globalização, os fluxos migratórios e os avanços da comunicação conectaram culturas, línguas e costumes de forma irreversível.

Esse dilema é particularmente evidente em histórias como a minha. Sou brasileira, nascida em Belém do Pará, uma cidade rica em heranças indígenas, africanas e ibéricas, com uma profunda influência cultural amazônica, européia, caribenha e latina.

Culturas no dia a dia

Atualmente moro no México, um país que compartilha muitas semelhanças com o Brasil, mas também possui suas próprias raízes e manifestações culturais muito distintas.

Além disso, trabalho para uma empresa japonesa, o que me insere diariamente em uma cultura corporativa oriental, com valores, normas e etiquetas muito diferentes das ocidentais.

Paralelamente, me dedico à dança flamenca, expressão artística de origem espanhola, e estudo italiano, uma língua e cultura que também me fascinam.

Diante de tantas influências, a pergunta surge inevitavelmente: como manter minha brasilidade viva, sem sufocar ou rejeitar as novas culturas que me atravessam todos os dias?

Bosque Rodrigues Alves, mantendo a identidade mexicana.
Bosque Rodrigues Alves em Belém – Imagem : Pixabay

Identidade e multiculturalidade em movimento

A primeira resposta que essa pergunta exige é um reconhecimento importante: identidade não é algo fixo, estático ou puro.

E diferente do que muitos imaginam, a identidade cultural é uma construção contínua, moldada pelas experiências, pelo tempo e pelas interações que temos ao longo da vida.

Adicionalmente, ser brasileira, não é apenas falar português ou comer açaí com farinha. É uma memória afetiva, um modo de ver o mundo, um conjunto de referências que carrego, mesmo que muitas vezes de forma inconsciente.

Por outro lado, essa identidade se transforma à medida que vivemos outras realidades. E tudo bem. O erro estaria em imaginar que só há duas opções: ou nos agarramos rigidamente ao que éramos, ignorando o novo, ou abrimos mão completamente das nossas raízes para “nos adaptarmos”.

O verdadeiro desafio — e também a beleza — está em equilibrar essas múltiplas influências sem perder o eixo central de quem somos.

Viver no México é um desafio para manter sua indentidade em meio a multiculturalidade.
A multiplicidade da capital mexicana serve para entender o processo da multiculturalidade – Imagem : Mario Aranda – Pixabay

Multiculturalidade e imigração

A imigração nos obriga a expandir horizontes. Ao viver em outro país, somos constantemente confrontados com hábitos diferentes, ritmos distintos, palavras novas e, muitas vezes, valores em choque com os nossos. No início, isso pode gerar desconforto, estranhamento e até um sentimento de perda.

No entanto, é comum o imigrante sentir que está “deixando de ser quem era”. Lembro que, quando cheguei no México, eu era muito “abrasileirada”.

Porém, hoje em dia tento camuflar o máximo possível, ao mesmo tempo que já sinto insatisfação com a vida local, onde inevitavelmente há muita comparação. E me pergunto como seria isso no Brasil…

Mas esse sentimento, embora legítimo, pode ser reconfigurado. O convívio multicultural pode se tornar uma ferramenta poderosa de enriquecimento da identidade e personalidade.

E quando olhamos para as culturas que nos cercam, com curiosidade e respeito, ao invés de temor ou resistência, ampliamos nossa visão de mundo e nos tornamos mais flexíveis, empáticos e criativos.

A importância da identidade na multiculturalidade

Viver no México, por exemplo, me ensinou o valor das tradições, do respeito aos antepassados, das festas populares cheias de cor, simbolismo e nacionalismo, assim como entender o ponto de vista do mexicano, diante do todo que o rodeia.

Ao mesmo tempo, trabalhar em uma empresa japonesa me instiga a pensar sobre disciplina, coletividade e minimalismo, além de trazer uma nova visão para enxergar culturas tão diferentes e fascinantes, como a oriental. 

Além disso, dançar flamenco me conecta com uma forma visceral de expressão emocional; estudar italiano abre portas para compreender a arte, a música e a história europeia de uma maneira mais profunda, sendo esses dois pontos, muito importantes para conhecer aspectos de nossos antepassados.

Contudo, essas experiências não me fazem menos brasileira — pelo contrário. Elas me ajudam a entender melhor o que significa ser brasileira fora do Brasil, em diálogo com o mundo. É aquela história: às vezes é de fora que se tem a melhor visão do paraíso!

As etapas de uma identidade consciente

Para manter viva a identidade em meio à multiculturalidade, imagino três movimentos fundamentais: resgatar, reafirmar e recriar.

Resgatar

O resgate diz respeito à reconexão com as origens. Pode se dar por meio da culinária, da música, da literatura, da língua ou dos rituais da infância. Cozinhar pratos típicos do Pará, como cuscuz doce ou Monteiro Lopes, por exemplo, é para mim mais do que uma atividade gastronômica: é uma forma de resistência cultural, um elo com a memória afetiva.

Adicionalmente, ouvir música brasileira, ler as notícias do meu estado e país, assistir a filmes e manter contato com familiares, também são formas de manter essa chama acesa, e o português em dia. 

Reafirmar

Reafirmar é um ato político e simbólico. Significa ter orgulho da própria história, da própria cor, da própria origem, mesmo quando se está cercada de outras culturas.

Entretanto, em ambientes internacionais, é comum que brasileiros, especialmente os do norte e nordeste, tenham que explicar ou justificar seus sotaques, hábitos ou visões de mundo. Reafirmar a identidade é dizer: “Sim, sou de Belém, do Pará, um estado no extremo norte do Brasil, não sou do Rio nem de São Paulo”.

Recriar

E por fim, recriar é aceitar que a identidade não precisa ser uma camisa de força. Podemos sim adotar novos elementos culturais que nos toquem, que nos façam crescer.

Nesse sentido, posso ser brasileira e amar o flamenco, trabalhar em uma empresa japonesa e manter minha espontaneidade paraense. E ainda, estudar italiano e continuar preferindo ouvir guitarrada paraense nas tardes de domingo. E mais, comer manga com pimenta em pó, juntando elementos paraenses com mexicanos.

Do mesmo modo, a recriação consciente da identidade nos liberta da obrigação de sermos “puros” — porque ninguém é. Todos somos, em alguma medida, resultado de encontros culturais, ainda mais no Brasil, um país tão miscigenado. É importante distinguir entre a integração multicultural e a assimilação acrítica.

Portanto, integrar-se é construir pontes, é dialogar. Assimilar de forma acrítica, por outro lado, é apagar a si mesmo em nome da adaptação. Isso acontece, por exemplo, quando imigrantes se forçam a adotar um idioma sem valorizar o seu próprio, ou quando deixam de celebrar suas datas culturais com receio de parecerem “diferentes”.

Esse processo mudou muito na minha cabeça quando tive meu filho em terras mexicanas e me dei conta que sempre serei estrangeira no país do meu filho.

Com isso, hoje tenho meus momentos e espaços brasileiros, onde eu posso reconfortar esse sentimento. Essa assimilação total pode parecer uma solução fácil a curto prazo, mas a longo prazo gera um vazio. Um sentimento de desenraizamento que pode afetar a autoestima e a saúde emocional.

É por isso que manter práticas culturais do país de origem é tão importante. Elas funcionam como âncoras de pertencimento. 

Um desafio é conviver com muitas culturas e não deixar a sua de lado.
A cultura japonesa é uma quebra de paradigmas de como manter a identidade na multiculturalidade – Imagem : Pixabay

Identidade híbrida em meio à multiculturalidade

É uma identidade que se abre, se deixa afetar, sem perder sua essência. É isso que a experiência migratória oferece — uma chance de viver uma identidade híbrida, mestiça, dinâmica.

E posso dizer que sou uma paraense vivendo num México multicultural, dançando com os pés da Andaluzia e sonhando em italiano. E está tudo bem.

Assim, essa colcha de retalhos culturais, quando bem costurada, não fere a identidade — ela enriquece e globaliza ante o mundo de hoje, que exige justamente isso: pessoas capazes de transitar entre códigos culturais, de mediar, de interpretar, de traduzir.

Manter a identidade, nesse contexto, não significa resistir ao novo, e sim negociar com ele de forma consciente e aberta. Aproveite e leia mais sobre diversidade cultural e imigração: impactos e oportunidades.

Me sinto estrangeira no México, mas também no Brasil

Manter a identidade em meio à multiculturalidade não é tarefa simples, mas é um ato de coragem e consciência. Significa reconhecer o próprio valor em um mar de referências externas, acolher o novo sem rejeitar o antigo. É um caminho de equilíbrio: nem apego absoluto às raízes, nem rendição total ao global.

No fim das contas, ser imigrante é aprender a ser de muitos lugares sem deixar de ser você mesma. É encontrar no entrelaçar de culturas não uma ameaça, mas uma oportunidade de florescimento.

Se a identidade é feita de pedaços, então que esses pedaços venham de todos os cantos onde nossos passos nos levarem — e dizer que talvez meu maior personagem é ser estrangeira, que cada paixão cultural me deixou marcas profundas e únicas! 

Se chegou até aqui, já parou para pensar em quantas culturas você está inserido(a) e como elas estão influenciando na sua vida? 

Cheiro grande!

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Caroline Solano

Olá! Sou Caroline, brasileira de Belém no Pará residente nas terras Aztecas, México. Sou especialista em marketing internacional, com bastante experiência em tropicalização e localização de conteúdo para o mercado brasileiro. Trabalho com desenhos animados há muitos anos (sim, sou paga para assistir animes hahaah) mas também, paralelamente, trabalho com terapias energéticas como Reiki, com Tarot e Medicina Tradicional Chinesa (Registro profissional de Terapeuta ABRATH- CRTH- BR 11574).  Como em uma novela mexicana vim parar aqui no México por conta de um grande amor e viver uma grande aventura a ¡La mexicana! Sempre vou levar você a refletir sobre algo, mas as risadas também estão garantidas. Um cheiro pra ti!

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