Você sabia que na Itália os alunos realizam exames oficiais (nacionais) ao final de cada ciclo escolar? Esses exames não são apenas provas: eles são verdadeiros ritos de passagem que marcam a transição entre etapas importantes da vida.
Neste artigo escrevi sobre o sistema de ensino italiano, a partir da vivência aqui de casa e do material encontrado no site do equivalente ao Ministério da Educação (MEC) brasileiro, que na Itália se chama MIM – Ministério da Instrução e do Mérito – e hoje vou trazer a experiência que vivemos com as conclusões dos ciclos.
Como funciona o sistema educacional italiano

Em resumo, o sistema italiano é dividido da seguinte maneira:
- Scuola dell’infanzia (Educação Infantil) – opcional, dos 3 aos 6 anos.
- Scuola primaria, também chamada de scuola elementare (equivalente ao Ensino Fundamental I do Brasil ) – obrigatória, dos 6 aos 11 anos. Tanto na Itália quanto no Brasil, este ciclo tem duração de 5 anos.
- Scuola secondaria di primo grado (seria Ensino Fundamental II) – dos 11 aos 14 anos. Na Itália, esse ciclo dura 3 anos, no Brasil, 4.
- Scuola secondaria di secondo grado (Ensino Médio) – dos 14 aos 19 anos. Divide-se em três principais tipos: Licei (acadêmicos – científico, clássico, linguístico, etc.), Institutos técnicos e Institutos profissionalizantes. Embora esse último ciclo tenha duração de 5 anos na Itália (contra 3 no Brasil), sua conclusão não é obrigatória.
A escolaridade obrigatória italiana vai dos 6 aos 16 anos. Ou seja, não é necessário concluir o ensino médio. Quem quiser completar o percurso inteiro — fundamental e médio — o fará em 13 anos, enquanto no Brasil são 12 anos.
Entretanto, ao final de cada ciclo, os estudantes devem realizar um exame nacional para obter o certificado de conclusão correspondente e eles são como ritos de passagem.
Além disso, as crianças são inseridas em turmas de acordo com a idade e o nível de compreensão do italiano. Apesar da qualidade do ensino público ser bastante boa, as escolas têm autonomia para decidir em que turma colocar o aluno, bem como, sobre o acesso a aulas de apoio e reforço linguístico.
Os exames de Estado mais relevantes e os ritos de passagem

Os dois exames de Estado mais importantes são: o Esame di Terza Media – ao final do Ensino Fundamental II e o Esame di Maturità – ao término do ensino médio
Sobre o Esame di Terza Media: aos 14 anos de idade, os alunos que concluem a scuola secondaria de primeiro grau, equivalente ao ensino fundamental II, realizam uma prova nacional composta por provas escritas de italiano, matemática e língua estrangeira e uma prova oral interdisciplinar. Por aqui, as crianças estão muito acostumadas a fazerem provas orais desde os 6 e 7 anos.
Contudo, a aprovação (e a nota) são necessárias para o ingresso no próximo ciclo. É também nesse momento, que os jovens precisam escolher qual percurso seguir: liceu, curso técnico ou profissionalizante e aqui se passa para a fase de grandes escolhas, pois, dependendo da escola que o aluno opta, é preciso estudar em outra cidade.
Neste link você encontra a experiência de uma família brasileira que optou pelo homeschooling na Itália.
Já o Esame di Maturità marca o encerramento do segundo ciclo e é particularmente importante para quem deseja cursar uma universidade. Ele inclui duas provas escritas: uma de italiano (comum a todos os estudantes) e outra específica do percurso de estudos (ex: matemática/física no liceo scientifico, ou latim/greco no liceo classico) e uma prova oral, que envolve uma discussão interdisciplinar com banca de professores.
Acima de tudo, a Maturità é muito mais do que um exame. Ela significa a entrada simbólica na vida adulta, talvez doss mais importantes ritos de passagem de criança/adolescente para adulto jovem.
A inserção dos alunos estrangeiros na escola
Importante ressaltar informações úteis para mães expatriadas : algumas escolas italianas podem exigir o certificado de conclusão da fase anterior para aceitar a matrícula do aluno na scuola secondaria di secondo grado (o ensino médio).
Como o ensino fundamental na Itália tem 8 anos, e no Brasil são 9, estudantes brasileiros que concluíram o 8º ano podem, dependendo da escola e da idade, serem aceitos no 1º ano do ensino médio italiano, mesmo sem o título da Terza Media. A legislação italiana não exige esse certificado para estrangeiros, mas como mencionei antes, as escolas têm autonomia para decidir a série adequada.
Principalmente para alunos mais velhos é difícil conseguir matrícula nos últimos anos do ensino médio, pois é necessário ter cursado os três últimos anos para poder fazer a Maturità. Nesse caso, a idade não pesa tanto, já que o ensino médio não é parte da escolaridade obrigatória, e as escolas podem aplicar seus próprios critérios.
Impressões pessoais sobre os exames de estado -verdadeiros ritos de passagem
Desde que chegamos à Itália em 2017, vivenciamos diversas fases escolares.
Em 2021, meu filho mais novo realizou o exame da Terza Media, com provas escritas de matemática, italiano e inglês. Naquele período, logo após a pandemia, as crianças também tiveram que preparar uma “tesina” (uma pequena tese) sobre um tema de interesse.
Ele escolheu falar sobre a Segunda Guerra Mundial, conectando o tema com as diversas disciplinas, a saber: História: o conflito em si; Geografia: o boom econômico do Japão no pós-guerra; Química: a produção de energia nuclear; Italiano: um poeta da época e Inglês: a história de Anne Frank
No próximo ano (junho de 2026), ele fará a Maturità, etapa já vivida por minha filha em 2022. Ela cursou o liceo scientifico (com forte carga horária de matemática e física, ideal para quem deseja estudar engenharia) e por isso, suas provas escritas foram de italiano e de matemática/física.
A Maturità acontece em três dias: No primeiro dia, acontece a Prova de italiano (nacional), no segundo, a Prova da disciplina específica (também nacional) e no terceiro dia, a Prova oral — a mais temida, pois os alunos são avaliados por uma banca formada pelos professores de TODAS as disciplinas, que podem perguntar qualquer conteúdo estudado nos cinco anos! Dá para imaginar o estresse desses adolescentes?
A Maturità é diferente do ENEM ou vestibular, sendo um dos ritos de passagem para a vida adulta
Muitos brasileiros associam a Maturità ao ENEM ou ao vestibular, mas isso não está correto. Apesar de abranger todo o conteúdo estudado, ela não serve como exame único de acesso à universidade. A nota da Maturità pode ser levada em consideração, mas a maioria das universidades italianas exige, além desta nota, um teste de ingresso específico.
O exame se assemelha mais ao Baccalauréat francês do que ao modelo brasileiro. E como o próprio nome sugere, Maturità remete à “maturidade” e por isso, valoriza o pensamento crítico, a capacidade de argumentar, a expressão pessoal e a síntese de ideias.
A Maturità é um marco simbólico e cultural na vida dos italianos. É tema de músicas, filmes e memórias intensas. No entanto, não há festa de formatura nem cerimônia formal de entrega de diplomas, como estamos acostumados no Brasil. Geralmente, as escolas organizam uma viagem cultural no último ano. A maior festa na vida dos italianos é quando eles completam 18 anos, mas esse é assunto para um outro texto.
Agora me conta, você já tinha ouvido falar sobre essas provas nacionais? Como funcionam os ciclos escolares no país em que você vive?
Um novo ciclo: a formatura universitária

Neste ano, minha filha concluiu mais uma etapa: ela se formou na universidade. E dessa vez tivemos uma cerimônia formal de “laurea”. O evento aconteceu de manhã, em um auditório da faculdade, com a entrega do diploma e a tradicional coroa de louros, símbolo da conquista acadêmica. Aqui na Itália , a toga e o capelo são substituídos por uma coroa de louros!
As coroas de louro eram usadas na Grécia e Roma antigas para homenagear generais, poetas e atletas vitoriosos. Representam sabedoria, vitória e glória. A palavra italiana laurea (formatura) vem do latim laurus, que significa louro.
Definitivamente, a vida acadêmica é bastante complexa e uma etapa importante na vida de qualquer pessoa, e para quem passa por essa experiência fora do seu país de origem, é um desafio ainda maior. Mas com dedicação e empenho, com certeza no final, o orgulho é ainda maior.
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Carla Bottino
Olá! Sou Carla Bottino, psicóloga, terapeuta de família e muito curiosa. Sempre gostei de ler sobre a cultura e em especial, sobre os hábitos, costumes e desafios de quem vive em outros países. Sou carioca, de descendência italiana e em 2017 embarquei para uma aventura ( que deveria ser de 8 meses) do outro lado do Oceano Atlântico, em Pádua na Italia. Sou mãe de filhos grandes – Mariana de 21 e Joao de 17 anos e nas minhas redes sociais conto sobre a vida nova no velho continente e trago algumas das minhas reflexões sobre os processos de mudança e adaptação, pertencimento e empreendedorismo mundo afora.