Você tem o hábito de comprar roupas novas para o Natal e para o Ano Novo? E ao longo do ano, você usa essas roupas muito ou pouco? Ou elas ficam dentro do seu armário, só vendo a vida passar? Ao longo deste artigo, iremos discutir sobre esse “hábito”.
O costume de ter roupas novas para o Natal e Ano Novo já existia quando eu era criança por um motivo: era nessa época que renovávamos as roupas. Quando eu era criança, não comprávamos nessa velocidade de hoje. E as roupas que ganhávamos no Natal usávamos no Ano Novo.
A compra de roupa nova para o Natal está enraizada numa combinação de atos culturais, psicológicos e comerciais que se desenvolveram ao longo do tempo. Embora não haja uma origem única e universalmente documentada, ao longo deste artigo, iremos discutir e refletir sobre as situações que levam a essa compra sazonal.
A tradição familiar de comprar roupas novas para o Natal
Exibir a roupa nova para as outras crianças era um acontecimento no final de ano. Em muitas famílias, a compra de uma peça de roupa nova para usar na ceia ou no dia de Natal é um costume passado de geração em geração. Essas tradições criam um sentimento de união e nos conectam com as raízes familiares, muitas vezes saudosistas.

O Natal coincide com o final do ano, simbolizando o nascimento e a renovação, com o nascimento de Jesus Cristo na cultura cristã. Usar roupas novas reflete um desejo de começar o novo ciclo com energias renovadas e um visual fresco.
Cores do Natal
No Brasil e em países da América Latina, a tradição de usar roupas com significados específicos é mais forte na passagem de ano. A cor branca é predominante no Ano Novo para simbolizar a paz (originário dos rituais de Candomblé e Umbanda). Além disso, outras cores são escolhidas para atrair desejos como saúde (verde), amor (rosa), dinheiro (amarelo/dourado), entre outros. Dessa forma, no Natal, também usamos o significado das cores na escolha de novas roupas, seja para combinar com a época ou até mesmo por superstição.
- Vermelho Entre as cores de Natal, o vermelho é uma das mais escolhidas para a ceia. Traz o significado do amor incondicional e também está presente na decoração.
- Verde Símbolo de esperança e resiliência, o verde também é uma escolha forte. Nos últimos anos, por conta de um viral nas redes sociais, a cor também foi associada à fertilidade. Logo, quem usar verde no Natal engravidará no próximo ano. Consequentemente, isso gera muito burburinho próximo à data festiva e até pessoas que usam verde para “provar que é mentira”. Você usaria verde só para desmentir uma tradição? (Eu não me arrisco).
- Dourado Por fim, outra cor que é uma grande aposta no Natal é o dourado. Essa cor representa a presença do divino, luz e sol. É uma cor mais forte na passagem de ano, mas também presente em combinações com vermelho e até mesmo nas decorações.

Comércio e a compra de roupas novas para o Natal
A época natalina não é apenas o período mais mágico do ano, mas também um dos momentos mais importantes para o comércio, incluindo o de roupas. O marketing e as vendas promovem ativamente a compra de roupas novas como presentes e para uso próprio nas festas, o que reforça o hábito cultural.
Grandes grupos internacionais com forte presença em Portugal, como a Inditex (Zara, Pull&Bear, etc.) e a Mango, reportaram crescimentos significativos nas suas vendas globais em 2024. E este crescimento também inclui o período do Natal. Portanto, isso reflete o bom desempenho no mercado português, que teve as vendas do retalho com aumento real em 2024 pela 1.ª vez em três anos. As redes sociais são uma vitrine perfeita para campanhas natalinas, usando os gatilhos de necessidade, conexão e pertencimento para impulsionar as compras dos consumidores.
Comprar roupas novas é, para muitas pessoas, uma atividade prazerosa. A excitação de escolher e usar uma peça nova contribui para o espírito festivo e para o bem-estar pessoal durante a celebração.
Na pesquisa realizada em minha rede social, através de um Google Forms, perguntei por que a pessoa compra roupas novas para o Natal. Uma das repostas que recebi foi: “Tenho certeza que é por conta da pressão do marketing.Contudo, todo ano me convenço que é meu subconsciente me preparando para uma ‘renovação simbólica’ de final de ano, desfazer-me do ‘velho’ e me preparar para o ‘novo’. Ou seja, as reflexões sobre um ano prestes a terminar e o ânimo de um novo recomeço, externando (materializando) as mudanças (evolução, amadurecimento, adaptação, etc.) internas realizadas, para recepcionar aquelas que estão por vir”. Dessa forma, isso nos mostra novamente a influência do marketing e das campanhas publicitárias que nos levam à decisão de compra através do uso de narrativas como tradição e recomeço.
Efeito das Fast Fashion e Ultrafast Fashion
Em primeiro lugar, a pesquisa realizada em minha rede social mostra que 40% dos entrevistados sempre compram roupas novas para o Natal. Em contrapartida 50% dizem que nem todo ano compram, mas sempre que podem realizam essa compra sazonal. Além disso, Quando perguntadas por que realizam essa compra, surgiram respostas como: “até eu não sei, creio que seja mania mesmo”. Também responderam:”Nem sempre compro, mas quando compro, é para combinar com a decoração de Natal”. O que nos revela que essa compra muitas vezes não é consciente.
Outro dado alarmante nessa pesquisa mostra que 60% das pessoas compram em Fast Fashion e Ultrafast Fashion em datas festivas. Sendo C&A, Renner, Shein e recentemente a H&M as mais populares. Já na Europa, Primark, H&M, as lojas pertencentes ao grupo Inditex e Shein são as mais escolhidas. Quando a prioridade do consumidor é estar na moda gastando pouco, ele recorre a essas lojas, principalmente as ultrafast fashion como Shein e Temu. Estas lojas oferecem uma gama maior de variedade por preços baixos e livres de impostos até um determinado valor, como ocorre na Europa e nos EUA.
Contudo, andar “na moda” com produtos de fast fashion acaba por ter um custo bastante alto para o meio ambiente. Tal como acontece com o “fast food”, as peças de vestuário e calçado fast fashion saem em escalada das linhas de produção e, em questão de dias, estão tanto a vestir o nosso corpo, como a encher os nossos containers do lixo, algo que acaba por ter um enorme impacto ambiental.
O descarte das roupas
A Fundação Ellen Macarthur divulgou dados de uma pesquisa, que confesso que não me surpreendeu, mas é chocante: nós usamos uma peça de roupa, em média, apenas sete vezes antes de descartar. Esse é o resultado dos materiais utilizados na fast fashion que são mais fracos e, portanto, mais baratos, acabando por serem descartados com maior rapidez pelos consumidores.
Dados da União Europeia mostram que, todos os anos, os consumidores europeus consomem, em média, 26 kg de produtos têxteis e descartam cerca de 11 kg. A maioria deles (87%) é incinerada ou depositada em aterros. Além do descarte incorreto que atinge oceanos, indo parar em praias e desertos, deixando resíduos de microplásticos no ambiente, o que impacta na vida marinha e em outros biomas.

Então, o que podemos fazer?
Uma alternativa à fast fashion é investir em peças de maior qualidade e durabilidade. Contudo, sabemos que a realidade financeira atualmente não permite grandes investimentos em roupas, sendo também uma alternativa à moda circular, como compras em brechós e em sites de Second Hand. Além disso, há o consumo consciente – opte por investir em peças de roupas que conversem com os itens que já possui no seu guarda-roupa. Use essa época de compras para investir naquela peça que você tanto queria e ainda não comprou – é melhor do que adquirir mais uma blusinha que ficará no fundo da gaveta o resto do ano.
Comprar roupas para datas festivas não é errado. Para algumas participantes da minha pesquisa, esse ato de comprar está relacionado a trazer prosperidade e receber a família e amigos para uma noite especial. Adicionalmente, possui o intuito de renovar o guarda-roupa para o próximo ano. Portanto, se gosta e tem vontade de comprar roupas nessa época, compre, mas treine para ter um olhar mais crítico e consciente.
About The Author
Vitória Helena
Oi mundo, eu sou a Vitória Helena. Estrategista de Marca Pessoal e na constante busca em entender o “porquê” por trás do consumo. Caiçara de SP e a viver em Portugal desde 2022, eu analiso como o comportamento e a moda impactam o nosso dia a dia, traduzindo essas análises em práticas para quem busca um posicionamento real.
Acredito na comunicação leve que ensina e na imagem que sustenta a sua verdade. O meu foco é ajudar mulheres das áreas da Saúde, Wellness e Empresárias da Moda a construírem um posicionamento digital verdadeiro, transformando conhecimento em autoridade através de conteúdos únicos e intencionais.
Saiba mais sobre o meu trabalho em www.vitoriahelena.com.br
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