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Quando a adaptação do adolescente deixa de ser tão simples…

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Adolescentes expatriados: quando a adaptação deixa de ser tão simples…
Adolescentes expatriados: quando a adaptação deixa de ser tão simples…

Durante muitos anos, ouvi que crianças se adaptam facilmente. E, em parte, isso pode ser verdade. Elas aprendem um novo idioma, começam outra escola, conhecem pessoas e, aos poucos, encontram maneiras de pertencer ao novo lugar, porém adaptação de um adolescente é bem mais difícil.

Mas o que acontece quando essas crianças crescem?

Depois de mais de dez anos vivendo fora do Brasil e de ter acompanhado meus três filhos em diferentes mudanças internacionais, percebi que a adaptação de um adolescente é muito mais complexa do que simplesmente aprender uma língua ou frequentar uma nova escola.

Quando são pequenas, muitas decisões são organizadas pelos adultos. Escolhemos a casa, a escola, as atividades e até facilitamos os primeiros encontros com outras famílias. Na adolescência, porém, os amigos, os grupos e o sentimento de pertencimento ocupam um lugar central. Por isso, mudar de país nessa fase pode significar muito mais do que trocar de endereço: pode representar a perda de uma parte importante da identidade que estava sendo construída.

Cada pessoa reage à mudança de uma forma diferente, e na adolescência tudo é mais intenso.
A mesma mudança pode ser vivida de formas diferentes – Imagem: Canva

Adaptação do adolescente: a mesma mudança pode ser vivida de formas diferentes

Nossa família saiu do Brasil e passou por Londres, Arábia Saudita, Singapura e, posteriormente, retornou à Inglaterra. Meus filhos cresceram convivendo com diferentes línguas, escolas, costumes e formas de compreender o mundo. Essa experiência trouxe oportunidades extraordinárias. Eles aprenderam a circular entre culturas, conheceram pessoas de diferentes nacionalidades e desenvolveram uma capacidade de adaptação que certamente levarão para a vida.

No entanto, isso não significa que todas as mudanças tenham sido simples.

Quando uma criança pequena chega a uma nova escola, podemos ajudá-la marcando encontros, apresentando outras famílias e criando oportunidades para brincar. Com um adolescente, não conseguimos simplesmente dizer: “Esta será sua nova melhor amiga.” As amizades nessa fase já possuem histórias, códigos, intimidades e grupos formados. O adolescente recém-chegado precisa descobrir onde pode se encaixar, ao mesmo tempo em que sente saudade das pessoas com quem não precisava explicar quem era.

Na nossa experiência, também percebi como as preocupações mudam com a idade. Quando os filhos são menores, queremos saber se gostarão da professora ou se conseguirão acompanhar as aulas. Na adolescência, surgem outras perguntas:

“Vou conseguir fazer amigos?”

“Será que vão gostar de mim?”

“Vou acompanhar esse novo sistema de ensino?”

“E se eu não me encaixar?”

“O que acontecerá com tudo o que construí até aqui?”

Essas questões nem sempre são verbalizadas. Algumas aparecem em forma de irritação, silêncio, resistência ou aparente desinteresse.

O que os adolescentes deixam para trás

Toda mudança internacional envolve ganhos, mas também perdas. O adolescente pode perder a convivência diária com os amigos, a proximidade com professores importantes, seu lugar no time esportivo, as referências culturais, a rotina e a sensação de saber exatamente como as coisas funcionam. Em determinadas situações, ele também perde uma versão de si mesmo.

No país anterior, talvez fosse conhecido como o aluno divertido, a amiga que escutava todo mundo, o jogador indispensável para a equipe ou a pessoa que organizava os encontros. Ao chegar a uma nova escola, nada disso é imediatamente reconhecido.

Ele precisa se apresentar novamente e reconstruir seu lugar dentro do grupo. Para os adultos, a mudança pode representar uma promoção, uma oportunidade profissional ou um novo projeto familiar. Para o adolescente, pode representar a interrupção de uma história que ele não escolheu encerrar.

É importante reconhecer essa diferença sem transformar os pais em culpados. As decisões familiares são complexas e, muitas vezes, envolvem aspectos profissionais, financeiros e emocionais. O cuidado está em não esperar que os filhos sintam apenas gratidão pelas oportunidades recebidas. Eles podem gostar do novo país e ainda sentir falta do anterior. Podem compreender a decisão dos pais e, ao mesmo tempo, estar tristes ou zangados. Sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir.

Os adolescentes precisam deixar amizades para trás quando mudam para o exterior e a se adaptarem a uma nova realidade.
O que os adolescentes deixam para trás – Imagem: Canva

Quando parecer bem não significa estar bem

Muitos adolescentes expatriados aprendem a se adaptar rapidamente porque já passaram por outras mudanças. Eles sabem observar o ambiente, ajustar o comportamento e encontrar formas de conversar com diferentes pessoas.

Essa competência é valiosa, mas pode esconder sofrimento.

Um adolescente pode frequentar as aulas, participar das atividades e responder que “está tudo bem”, enquanto ainda se sente profundamente sozinho. Pode ter colegas sem sentir que possui amigos íntimos. Pode parecer independente porque deixou de pedir ajuda, não porque já não precise dela.

A literatura sobre jovens internacionalmente móveis mostra que a experiência pode favorecer flexibilidade, competência intercultural e uma visão mais ampla do mundo. Ao mesmo tempo, as mudanças podem afetar o sentimento de pertencimento, as relações sociais e o processo de construção da identidade: questões especialmente importantes durante a adolescência.

Por isso, precisamos tomar cuidado com frases como:

“Você já mudou outras vezes e sempre se adaptou.”

“Logo você fará novos amigos.”

“Você precisa aproveitar esta oportunidade.”

“Pense em tudo o que estamos oferecendo.”

Embora sejam ditas com boa intenção, essas frases podem fazer o adolescente sentir que não possui o direito de sofrer.

O papel das amizades e das atividades

Na adolescência, pertencer a um grupo não é algo superficial. As relações com os pares participam da construção da identidade, da autonomia e da autoestima. Na nossa família, o esporte teve um papel importante durante as transições para as meninas. Um campo de futebol possui regras reconhecíveis, mesmo quando quase todo o restante parece novo. Entrar para uma equipe pode oferecer rotina, objetivos compartilhados e uma primeira sensação de pertencimento.

Entretanto, até uma atividade que o adolescente ama exige atenção. Um novo time possui relações já estabelecidas, estilos diferentes de comunicação e expectativas que ele ainda precisa compreender. Estar cercado de pessoas não elimina automaticamente a solidão.

Esse é um exemplo real de como os pais podem ajudar: não escolhendo os amigos dos filhos, mas procurando ambientes nos quais encontros significativos possam acontecer. Esporte, música, teatro, voluntariado e outros interesses podem funcionar como pontes entre a vida anterior e a nova realidade.

Fazer um esporte coletivo ajuda na adaptação do adolescente e na construção de novas amizades fora do país de origem.
O papel das amizades e das atividades na adaptação do adolescente – Imagem: Canva

Como os pais podem facilitar a adaptação do adolescente

O primeiro passo é incluir o adolescente no processo sempre que possível. Talvez ele não possa decidir se a família mudará, mas pode participar de escolhas compatíveis com sua idade: conhecer escolas, pesquisar atividades, organizar o quarto, compreender o calendário acadêmico e pensar em como manter os vínculos anteriores. Participar não significa assumir a responsabilidade pela decisão. Significa recuperar parte da sensação de controle.

Também é importante:

  • Permitir que o adolescente se despeça de verdade, sem minimizar a tristeza.
  • Ajudá-lo a manter amizades importantes, mas sem exigir que viva apenas conectado ao país anterior.
  • Evitar comparar o tempo de adaptação entre irmãos.
  • Preservar algumas rotinas familiares em meio às mudanças.
  • Demonstrar curiosidade sobre a nova escola sem transformar cada conversa em um interrogatório.
  • Validar a saudade, a raiva e a ambivalência.
  • Criar oportunidades de convivência, respeitando o ritmo e os interesses do adolescente.
  • Manter diálogo com a escola, especialmente nos primeiros meses.
  • Procurar apoio profissional quando o sofrimento se torna persistente ou interfere na vida cotidiana.

Cada filho vive a mudança de maneira diferente. Mesmo irmãos que chegam ao mesmo país, frequentam a mesma escola e vivem na mesma casa podem ter experiências completamente distintas. Personalidade, idade, amizades, momento acadêmico e experiências anteriores influenciam o processo.

Quando devemos prestar mais atenção?

É natural que exista um período de tristeza, irritação ou insegurança depois de uma mudança. A adaptação não acontece em linha reta: um dia pode ser satisfatório e o seguinte muito difícil.

Entretanto, alguns sinais merecem atenção quando persistem ou aumentam:

  • Isolamento intenso.
  • Alterações importantes no sono ou na alimentação.
  • Queda acentuada no rendimento escolar.
  • Recusa frequente de ir à escola.
  • Perda de interesse por atividades antes prazerosas.
  • Ansiedade constante ou crises de pânico.
  • Irritabilidade muito intensa.
  • Sentimento persistente de não pertencer a lugar algum.
  • Falas de desesperança, inutilidade ou vontade de desaparecer.

Esses sinais não devem ser interpretados como falta de gratidão, drama ou dificuldade de aceitar limites. Eles podem indicar que o adolescente precisa de mais apoio.

Afinal, de onde são os nossos filhos?

Filhos que crescem entre culturas nem sempre conseguem responder de maneira simples à pergunta “De onde você é?”. Eles podem se sentir brasileiros em alguns momentos, britânicos em outros e profundamente ligados a países que fizeram parte da infância, mesmo sem terem nascido neles. Podem falar um idioma com os pais, estudar em outro e pensar ou sonhar misturando referências. Essa identidade não precisa ser corrigida ou limitada a uma única nacionalidade. Ela pode ser múltipla.

Talvez nosso papel, como pais, não seja exigir que os filhos escolham um lugar ao qual pertencer. Talvez seja ajudá-los a integrar todas as partes da própria história. Hoje, olhando para a trajetória da nossa família, reconheço as oportunidades que a vida expatriada ofereceu aos meus filhos, mas também compreendo melhor os esforços emocionais exigidos em cada recomeço.

Adolescentes podem ser flexíveis, corajosos e competentes. Ainda assim, precisam de tempo, escuta e relações seguras. Resiliência não significa não sofrer. Significa poder atravessar as dificuldades contando com apoio. Quando uma família muda de país, não transportamos apenas malas.

Levamos memórias, vínculos, medos, expectativas e diferentes versões de quem fomos em cada lugar. A adaptação deixa de ser tão simples quando entendemos que o adolescente não está apenas aprendendo a viver em um novo país. Ele está tentando descobrir quem é, e onde todas as partes de sua história poderão encontrar um lar, como em uma colcha de retalhos.

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Isabella Martins

Ola! Meu nome é Isabella Martins e trabalho como Orientadora parental e como professora de educação infantil em Londres. Tenho três filhos adolescentes e moro fora do Brasil há dez anos. Já morei em Londres, Arábia Saudita, Singapura e agora retornei para Londres. Tenho a oportunidade de conhecer diversas culturas e o impacto delas na educação dos meus filhos e alunos. Sou apaixonada por educação e adoro explicar as etapas do desenvolvimento infantil. Faço atendimentos online em Português e Inglês. Acredito que criar relações de afeto melhoram as dinâmicas familiares e permite que tenhamos um lar onde a base seja o amor entre pais e filhos. Siga meu Instagram para mais informações: @isabellagmartins03 Vamos juntas?

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