Em oito anos morando na Itália, esta foi a primeira vez que recebi visitas em casa durante as festas de final de ano. Demorou. E talvez só agora eu consiga nomear o quanto esse gesto simples — abrir a porta de casa — carrega camadas profundas quando se vive fora.
Está sendo delicioso. A casa ganhou vozes diferentes, risadas que não são do cotidiano, cheiros que misturam hábitos, além de sotaques e memórias. Há algo de reparador em ver pessoas queridas circulando pelos mesmos espaços que, por tanto tempo, foram cenário apenas da nossa adaptação, das nossas rotinas silenciosas, das ausências administradas.
Contudo, para quem nunca viveu a experiência da imigração, isso pode parecer apenas um detalhe. Mas esse gesto carrega um peso simbólico profundo e vou te explicar de que forma isso acontece. Receber visitas em casa depois de morar fora pode ser um marco emocional, identitário e relacional.
Aqui eu escrevi sobre as festas de fim de ano na Italia.
Receber visitas pode trazer sentimentos ambivalentes
Já ouvi imigrantes relatarem sentimentos ambivalentes quando recebem visitas em casa no exterior. Há alegria, orgulho e afeto, mas também cansaço, ansiedade e uma sensação de exposição. Receber alguém não é apenas oferecer hospedagem – é apresentar uma vida inteira.
Entre relatos frequentes, surgem frases como: “Quero muito receber, mas tenho medo de não corresponder às expectativas.” “Tenho orgulho da vida que construí, mas também vergonha do quanto ela é simples.” “Receber visitas me faz perceber o quanto mudei.”
Esses sentimentos revelam algo importante: morar fora transforma profundamente a identidade. E receber visitas é permitir que o outro veja essas transformações de perto.
Particularmente sempre fiquei muito feliz com as visitas que recebi.
Quando a casa vira lar
A casa do imigrante raramente nasce como lar. No início, ela costuma ser provisória — mesmo quando o contrato é longo. Além disso, há sempre a sensação de que algo ainda não se assentou por completo.

No primeiro ano na Italia mudamos três vezes até encontrar o apartamento onde moramos por quase 5 anos. Em 2022 mudamos para aquele que é o nosso lar! Ele ainda não está pronto e foi para receber as visitas que encomendei as cortinas, comprei uma poltrona nova, novos “jogos americanos”, aumentei a quantidade de talheres … me preparei para receber pessoas queridas em casa!
Entretanto, abrir a porta para receber pessoas queridas exige mais do que organização prática: exige reconhecimento interno de pertencimento.
Leia aqui sobre como transformar o novo país em um lar.
Mostrar a cidade é muito mais do que visitar os pontos turisticos
Existe uma alegria especial em apresentar os lugares favoritos a quem vem de longe. Mas, para quem vive fora, isso vai muito além de mostrar pontos turísticos. Mostrar a cidade é contar uma história pessoal. Cada rua conhecida, cada café frequentado, cada trajeto cotidiano carrega marcas do processo migratório.
Costumo dizer que apresento a cidade a partir das minhas preferências e, ao mesmo tempo, apresento os novos hábitos da família, o ritmo da vida, as escolhas feitas ao longo dos anos. Não é turismo — é narrativa de identidade.
Portanto, receber visitas, nesse sentido, é um convite íntimo: venha ver como vivemos agora.
Receber visitar exige reorganizar a rotina
Na casa do imigrante, muitas vezes não há empregadas, nem cozinheiras, nem a estrutura que existia no país de origem. Somos nós que cozinhamos, lavamos roupa, separamos o lixo, limpamos a casa e fazemos as compras.
Esse cotidiano simples, quase invisível, é profundamente estruturante na experiência de morar fora. Ele redefine papéis, desmonta idealizações e exige autonomia. Muitos imigrantes relatam que recebem visitas com certo receio de serem julgados — não pela casa em si, mas pela vida real que levam. E, ainda assim, é nesse cotidiano que o pertencimento começa a se construir.

Neste artigo voce encontra dicas de como receber visitas na Europa e neste outro voce encontra dicas de como encantar as suas visitas.
Receber visitar nao é estar de ferias
Receber pessoas queridas não significa estar de férias. O trabalho continua, os horários existem, as responsabilidades permanecem.
Apesar das crianças não terem aula no período das festas de final de ano – aqui na região onde eu moro (Veneto, Italia) o recesso escolar foi de 24/12/2025 a 6/01/2026. Ao retornarem às aulas, elas terão provas escritas e provas orais. Como meus filhos dizem, não são férias, é um período de muito estudo e, essa foi uma das razões para nunca termos ido passar o Natal no Brasil.
A imigração não suspende a vida para celebrar encontros. Ela incorpora o afeto ao real. Receber visitas no meio da rotina exige negociação: de tempo, de espaço, de energia emocional.
Deste lado do Oceano Atlantico não temos ajudantes do lar – somos nos quem arrumamos, passamos, cozinhamos, separamos o lixo … ou seja, somos responsáveis pelas tarefas da nossa casa e isso também nos reestrutura, pois faz parte do processo da migração. Talvez seja uma vida mais simples do que aquela que tínhamos no Brasil.
A vida por aqui segue tentando equilibrar nossa rotina, de trabalho, com os passeios, jantares e encontros. A vida não pausa porque alguém veio de longe. Ao mesmo tempo, há o desejo genuíno de acolher: reorganizar a casa, redistribuir quartos, adaptar horários, pensar nas refeições, criar conforto onde antes havia apenas funcionalidade.
Mostrar a vida como ela é, e não como se imagina que deveria ser, torna o encontro mais verdadeiro.
Pertencimento, imigração e identidade
Dessa forma, receber visitas em casa depois da imigração é um movimento de integração e pertencimento. Este último não é dado, não é imediato, mas é construído no cotidiano, nos vínculos e nos gestos repetidos. E, ao poder compartilhar nossa casa e nossa vida com a familia e amigos, é como se algo tivesse se assentado! Há casa, há vida, há identidade.
Agora me conta, como voce se prepara para receber visitas em casa?
About The Author
Carla Bottino
Olá! Sou Carla Bottino, psicóloga, terapeuta de família e muito curiosa. Sempre gostei de ler sobre a cultura e em especial, sobre os hábitos, costumes e desafios de quem vive em outros países. Sou carioca, de descendência italiana e em 2017 embarquei para uma aventura ( que deveria ser de 8 meses) do outro lado do Oceano Atlântico, em Pádua na Italia. Sou mãe de filhos grandes – Mariana de 21 e Joao de 17 anos e nas minhas redes sociais conto sobre a vida nova no velho continente e trago algumas das minhas reflexões sobre os processos de mudança e adaptação, pertencimento e empreendedorismo mundo afora.