No mês em que acontecem os jogos olímpicos de inverno Milano-Cortina 2026 vou falar sobre a settimana bianca, em uma tradução simples – semana branca, que consiste em uma semana de férias de inverno que muitas famílias italianas passam na montanha, aproveitando a neve, o esqui e, sobretudo o tempo juntos.
Viver na Itália como imigrante é também aprender um novo calendário físico e emocional. As estações do ano, bem demarcadas, não marcam apenas o clima, mas organizam hábitos, conversas e tradições.
Neste texto escrevi sobre o impacto das estações do ano na vida de quem vive no hemisfério norte – elas influenciam no nosso guarda-roupa, na alimentação e em tantas outras coisas.
O que é a settimana bianca na Itália
A settimana bianca é uma tradição bastante consolidada na cultura italiana. Trata-se de uma semana de férias durante o inverno, geralmente passada em regiões montanhosas, especialmente nos Alpes. Em geral, ela acontece em três períodos principais: em dezembro, entre o Natal e o Ano Novo; em janeiro, logo após as festas; ou durante o Carnaval.
Essa escolha não é aleatória. Pelo contrário, é preciso conciliar dois fatores fundamentais: o auge do inverno para garantir neve suficiente e as férias escolares das crianças (ou algum tipo de recesso).
Muito além do esqui: uma tradição familiar
Embora o esqui seja o grande protagonista da settimana bianca, reduzir essa experiência apenas ao esporte seria simplificar demais. Para muitas famílias italianas, essa semana representa uma pausa coletiva no ritmo acelerado do ano. É um tempo dedicado à convivência, às refeições longas, às conversas sem pressa e à criação de memórias.
Além disso, o esqui funciona quase como um rito de passagem. Crianças aprendem cedo, frequentam aulas, caem, levantam e crescem associando o inverno à montanha. Para quem vem de fora — especialmente de um país sem neve — isso pode causar estranhamento, mas também curiosidade. Afinal, trata-se de uma relação cultural com o inverno que vai muito além do turismo.
Faço um parêntese para contar que moro na região Nordeste da Itália. Estou perto das Dolomitas, um conjunto de montanhas maravilhoso que desde 2009 é patrimônio da Unesco e que neste ano vai ser uma das Sedes dos Jogos Olímpicos de Inverno. Dito isso, faz sentido que as pessoas que moram por aqui tenham o costume de esquiar e fazer a tal semana branca no inverno.

Uma família das areias do Rio de Janeiro na neve dos Dolomitas
Muitas das pessoas que conhecemos têm o costume de fazer uma semana na neve. Nós também já tivemos algumas experiências neste sentido.
No nosso segundo inverno na Itália, passamos uma semana em uma cidade de montanha, no Vale Aurina.
Reservamos uma semana em um hotel pequeno, com o serviço de meia pensão – café da manhã e jantar, pois, as pessoas tomam o café, passam o dia fora e às 16.30, quando está escurecendo voltam para o hotel para jantar, descansar e se preparar para o dia seguinte.
Compramos roupas e sapatos adequados para aquela semana em que a temperatura chegou a 13 graus negativos. Alugamos equipamento, fizemos algumas aulas de esqui e as crianças, de 9 e 14 anos, gostaram bastante!
Particularmente não curti. Senti muito medo e preferi passar a semana visitando as cidades do vale, fazendo vídeo das crianças brincando na neve e lendo! Depois dessa primeira semana branca, vieram outras e aproveito do meu jeito.
Neve, descanso e leitura: outro jeito de viver o inverno italiano
Descobri que a settimana bianca também pode ser um tempo de recolhimento. Levo livros, escrevo, descanso. Observar a neve cair pela janela se tornou, para mim, uma forma de presença. Em vez da performance esportiva, escolhi a contemplação. Em vez da velocidade, a pausa.
Além disso, participar da tradição sem seguir todos os seus códigos me ensinou algo importante sobre imigração: integrar-se não significa apagar quem somos. Pelo contrário, significa encontrar um lugar possível dentro da cultura do outro. Eu compartilho refeições, caminhadas curtas, momentos ao redor da lareira, chocolates quentes no fim da tarde e o happy hour depois do esqui. Ou seja, estou presente — apenas de um jeito diferente.
A Settimana Bianca como experiência cultural
Mesmo para quem não pratica os esportes da estação, o inverno italiano é lindo e deve ser vivido como os locais o fazem. As pequenas cidades enfeitadas para receber seus hóspedes / visitantes, com neve, chalés aquecidos, cafeterias com cobertores apoiados nas cadeiras, mercadinhos de Natal e de produtos típicos da região e com a comida que traz conforto, parecem cenário de filme.

Não estou querendo dizer que tudo são flores. Muito pelo contrário, passar pelos 3 meses de inverno pode ser muito difícil – faz frio, os dias são mais curtos, falta a luz do sol e pode dar muita preguiça de sair de casa. Contudo, este é um tema para outro artigo.
Hoje, quando escrevo no Diário de uma expatriada, vejo a settimana bianca como um símbolo do meu processo de adaptação na Itália. Não precisei aprender a esquiar para entender o valor dessa semana.
About The Author
Carla Bottino
Olá! Sou Carla Bottino, psicóloga, terapeuta de família e muito curiosa. Sempre gostei de ler sobre a cultura e em especial, sobre os hábitos, costumes e desafios de quem vive em outros países. Sou carioca, de descendência italiana e em 2017 embarquei para uma aventura ( que deveria ser de 8 meses) do outro lado do Oceano Atlântico, em Pádua na Italia. Sou mãe de filhos grandes – Mariana de 21 e Joao de 17 anos e nas minhas redes sociais conto sobre a vida nova no velho continente e trago algumas das minhas reflexões sobre os processos de mudança e adaptação, pertencimento e empreendedorismo mundo afora.