Maternidade no exterior: o que ninguém me contou? Primeiro, e antes de mais nada, que ser mãe fora do Brasil seria tão solitário. Nem que, no meio dessa solidão, eu aprenderia tanto sobre mim mesma.
De fato, quando nos mudamos para fora do nosso país, pensamos na logística, nas escolas, no idioma. Mas há um lado invisível da maternidade expatriada que só se revela no dia a dia: é quando você percebe que o simples fato de sair de casa com uma criança pode ser uma aventura cheia de códigos culturais que você ainda está aprendendo.
Perguntas frequentes sobre o tema da maternidade no exterior
Amigas me pedem, com frequência, para conversar com outras mães que estão prestes a fazer essa transição: “Ela está indo para fora pela primeira vez, pode conversar com ela?”. E eu converso com prazer. Fiz, inclusive, até um artigo sobre o assunto, no primeiro texto que escrevi para o blog. Falamos sobre o sistema de ensino, bairros para morar, adaptação das crianças… compartilho o que funcionou para mim e, principalmente, o que eu teria feito diferente.
Mas tem uma pergunta que quase sempre aparece, seja de amigas, conhecidas, e até de quem ouve um pouco da minha história:
“Como é abandonar sua carreira?”
“Como você se sentiu abrindo mão de tudo?”
Durante muito tempo, minha resposta foi direta, quase automática: “Eu me reinventei”. E sim, isso é verdade, porém hoje, dez anos depois da minha primeira mudança, percebo que a resposta vai além. Ao invés de focar no fato de que “perdi” uma carreira estável, reconhecimento profissional, independência financeira, consigo, por outro lado, olhar com mais gentileza para tudo o que ganhei. E não é um discurso de Poliana. É maturidade.
Ganhei uma capacidade de adaptação que eu não sabia que tinha. Além disso, um entendimento profundo sobre culturas, valores e formas diferentes de viver que nenhuma pós-graduação poderia me oferecer. Da mesma forma, ganhei uma presença com meus filhos que teria sido impossível com o ritmo frenético que eu vivia no Brasil. Não só isso, mas também acabei por ganhar clareza sobre quem eu sou – como mãe, como mulher, como ser humano.

Começar do zero (de novo e de novo) – isso é maternidade no exterior
Mudar de país é, de certa forma, renascer. Como mãe, isso se intensifica. O que funcionava em um lugar pode ser um fracasso no outro. As referências mudam, os conselhos não se aplicam, e você se vê tendo que confiar mais em si mesma do que nunca.
Lembro de me sentir completamente perdida na hora de escolher uma escola, mas percebi que no Brasil, eu sabia o que observar, o que perguntar. No novo país, até o formato das reuniões de pais era estranho e, várias vezes, me vi perguntando: “Será que estou mesmo fazendo o melhor por eles?”. E essa pergunta virou uma companhia constante para mim.
Mas foi nesse “começar do zero” que descobri minha força. Encontrei novas formas de me conectar com meus filhos, aprendi a criar rotinas que funcionavam no nosso novo contexto e aceitei que tudo bem não saber tudo, desde que a gente estivesse aprendendo juntas.
Solidão e rede de apoio
Fui aprendendo, na prática, que ser mãe fora do Brasil é, muitas vezes, estar sozinha em momentos que, no Brasil, seriam naturalmente compartilhados: a febre de madrugada, o aniversário sem os avós, a dúvida sobre qual médico procurar. Foi então que aprendi a pedir ajuda e, a partir daí, a criar minha própria rede de apoio.
Em cada lugar por onde passamos, construí minha “família escolhida”: amigas que viraram irmãs, vizinhas que salvaram o dia, mães da escola com quem compartilhei choros e risadas. E, acredite, essa rede faz toda a diferença.

Misturar culturas e criar o “nosso jeito”
Olhando para trás, uma das maiores riquezas da maternidade expatriada é poder escolher – com intenção – o que levar de cada cultura. No início, eu comparava tudo. O Brasil era mais afetivo, mais acolhedor e a comida sempre será a melhor. Os novos países eram mais organizados, mais respeitosos com a individualidade da criança e mais seguros. Com o tempo, aprendi a escolher o melhor dos dois mundos.
Por exemplo, adotei o “sorry” britânico antes de cada bronca, porém continuo acreditando que o colo é resposta para 90% dos problemas. Meus filhos almoçam feijão, mas aprendem sobre diversidade com naturalidade. Sabem cantar Jota Quest e músicas em inglês. E está tudo bem.
Reinvenção: não só profissional
A grande reinvenção que vivi fora do Brasil não foi apenas na carreira — embora essa também tenha vindo quando fiz uma pós graduação em Educação. Foi uma reinvenção de identidade. Passei a me ver como alguém que é capaz de mudar, de aprender, de construir um novo caminho, mesmo sem todas as respostas, e ter orgulho da minha trajetória, mesmo depois de ter “perdido”minha carreira.
Duvidei de mim muitas vezes, sim. Chorei de medo, de exaustão, de saudade. Mas também descobri uma capacidade de realização que estava encoberta pelo automático da rotina. Criei projetos, encontrei novos talentos, voltei a estudar, empreendi, fiz amizades incríveis e conheci lugares que nunca tinha sonhado. E hoje consigo enxergar a potência disso tudo.
Um convite ao olhar gentil
Se você está a “maternar” fora do Brasil, ou pensa em fazer isso, talvez esse texto não traga respostas prontas — mas eu espero que ele te traga acolhimento. Você não está sozinha. Nenhuma de nós está. A maternidade no exterior pode ser desafiadora, sim. Mas também pode ser o maior portal de crescimento da sua vida.
E você, o que ninguém te contou sobre “maternar” fora do Brasil? Compartilha aqui nos comentários e, se quiser ler mais artigos da autora, clique aqui!
About The Author
Isabella Martins
Ola! Meu nome é Isabella Martins e trabalho como Orientadora parental e como professora de educação infantil em Londres.
Tenho três filhos adolescentes e moro fora do Brasil há dez anos.
Já morei em Londres, Arábia Saudita, Singapura e agora retornei para Londres.
Tenho a oportunidade de conhecer diversas culturas e o
impacto delas na educação dos meus filhos e alunos.
Sou apaixonada por educação e adoro explicar as etapas do desenvolvimento infantil. Faço atendimentos online em Português e Inglês.
Acredito que criar relações de afeto melhoram as dinâmicas familiares e permite que tenhamos um lar onde a base seja o amor entre pais e filhos.
Siga meu Instagram para mais informações: @isabellagmartins03
Vamos juntas?