Se as vezes o brasileiro tem o péssimo costume de ser patriota somente na Copa, para os nossos hermanos aztecas existe algo muito forte na relação que eles possuem com a própria identidade nacional.
E para perceber isso, basta viver algum tempo no país e sentir que o patriotismo mexicano está presente em praticamente tudo: na comida, na música, na valorização dos povos originários, nas tradições populares, no futebol, na forma apaixonada como defendem a própria cultura e, principalmente, nas celebrações valorizando essa visão. Diferente de nós, no México, essa consciência nasce dentro das escolas.
Antes mesmo de aprenderem profundamente sobre política ou história, as crianças mexicanas já crescem entendendo os símbolos nacionais, conhecendo os heróis da independência e participando de cerimônias cívicas que fortalecem o sentimento de pertencimento ao país.
Esse sentimento não surge espontaneamente na vida adulta, mas aprende-se desde a educação infantil.
Grito de Dolores e a Festa Nacional
Para entender isso, é necessário voltar ao contexto histórico da independência do país. Durante mais de trezentos anos, a Espanha colonizou o território mexicano, período conhecido como Vice-Reino da Nova Espanha.
A sociedade era extremamente desigual, com privilégios concentrados nas mãos dos espanhóis nascidos na Europa. Portanto, indígenas, mestiços e crioulos enfrentavam limitações sociais e econômicas.
Com isso, em 1810, o padre Miguel Hidalgo y Costilla iniciou oficialmente o movimento de independência ao tocar o sino da igreja de Dolores e convocar o povo para se rebelar contra o domínio espanhol. Esse episódio ficou conhecido como “Grito de Dolores” e marcou o início da luta pela independência mexicana.
Independência mexicana
Embora a independência tenha sido oficialmente conquistada apenas em 1821, o dia mais celebrado pelos mexicanos é justamente o 15 de setembro, pois é a noite em que ocorre a tradicional recriação do Grito de Independência.
Todos os anos, o presidente em exercício repete o famoso grito diante da multidão reunida no Zócalo, na Cidade do México, enquanto milhares de pessoas vestidas de verde, branco e vermelho celebram nas ruas. É uma das festas nacionais mais importantes do país e talvez uma das maiores demonstrações de patriotismo popular da América Latina.
Eu como estrangeira, me emociono muito quando escuto: “¡Mexicanos! ¡Vivan los héroes que nos dieron patria! ¡Viva Hidalgo! ¡Viva Morelos! ¡Viva Josefa Ortiz de Domínguez! ¡Viva Allende! ¡Viva Aldama! ¡Viva la independencia nacional! ¡Viva México! ¡Viva México! ¡Viva México!”

A memória afetiva é despertada muito cedo
Nas escolas mexicanas, as comemorações da independência começam semanas antes do dia 15 de setembro. Crianças ensaiam danças típicas, aprendem músicas patrióticas, confeccionam bandeiras, decoram salas de aula com as cores nacionais e participam de apresentações sobre os heróis da independência.
Esse sentimento de amor ao país é despertado desde cedo e as crianças entram em contato com essas tradiçôes nos seus primeiros anos.
Também aprendem quem foi Miguel Hidalgo, José María Morelos, Josefa Ortiz de Domínguez e outros personagens históricos considerados fundamentais para a construção do país.
Símbolos Nacionais
Em muitas instituições, especialmente públicas, existe semanalmente o chamado “Honores a la Bandera”, uma cerimônia dedicada ao respeito à bandeira nacional. Os alunos cantam o hino nacional, fazem juramentos à bandeira e participam de momentos de valorização dos símbolos nacionais. É muito gratificante ver os pequenos criando uma relação entre a sua educação e a identidade nacional.
O hino mexicano, inclusive, é levado extremamente a sério. As crianças aprendem desde cedo a cantá-lo corretamente, compreendendo sua importância histórica e simbólica.
Acima de tudo, existe um respeito muito grande pelos símbolos nacionais, e isso é ensinado de maneira ostensiva. Não é apenas uma formalidade; trata-se de uma construção cultural profunda.
Além disso, as crianças aprendem sobre civilizações indígenas, como astecas e maias, estudam a Revolução Mexicana e conhecem personagens históricos que ajudaram a formar a identidade do país. Isso contribui para criar uma população com forte consciência cultural e histórica e de certa forma, cria alguns “monstros fictícios ” que aguçam a rivalidade intrínseca entre mexicanos e espanhóis ou entre mexicanos e estadunidenses.

História sempre será a base para entender o futuro
E esse é o ponto chave, diferente de muitos países que acabam priorizando culturas estrangeiras, o México investe fortemente na preservação da própria identidade cultural desde a infância.
Por outro lado, também existem debates sobre exageros e idealizações históricas. Há pessoas que apontam que o patriotismo mexicano pode romantizar determinados períodos históricos ou simplificar questões sociais complexas.
Um bom exemplo é que, em alguns lugares existe o enaltecimento da narcocultura como um elemento de resistência. Porém, é impossível negar que tudo isso formou uma população extremamente conectada à própria cultura e orgulhosa de suas origens.
O futebol como manifestação do patriotismo mexicano
A última Copa do Mundo onde o México foi uma das sedes, serviu para mostrar aos estrageiros a paixão dos mexicanos pela sua nação. A esperança de que a seleção nacional avançasse no campeonato, vestiu o país com as cores da bandeira e levou mais de um milhão de pessoas ao Paseo de la Reforma, aos pés do Ángel de la Independencia.
Dessa forma, grande parte desse sentimento nasce, cresce e se fortalece dentro das escolas, onde as crianças aprendem que ser mexicano vai muito além de nascer no México. Meu filho que o diga!

Ser mexicano é um estado de espírito
No meu caso, assim como de milhares de estrangeiros residentes no país, sabemos de cor a frase da cantora Chavela Vargas, nascida na Costa Rica e naturalizada mexicana, que diz: “Los mexicanos nacimos donde nos da la rechingada gana” (Os mexicanos nascem onde dá na telha deles). Sendo assim, exaltamos que o patriotismo mexicano é um estado de espírito muito mais do que o lugar onde uma pessoa nasce.
Portanto, ser mexicano de nascimento ou de coração significa carregar uma história, uma cultura, símbolos e tradições que são celebrados desde os primeiros anos de vida na escola ou quando se aterrissa em um aeroporto.
E como eu sempre digo: eu sou mexicana, nascida no Aeropuerto Internacional Benito Juarez… rsrsrs!
Mas e aí, você conhecia esse Mexican state of mind? Cheiro!
About The Author
Caroline Solano
Olá! Sou Caroline, brasileira de Belém no Pará residente nas terras Aztecas, México. Sou especialista em marketing internacional, com bastante experiência em tropicalização e localização de conteúdo para o mercado brasileiro. Trabalho com desenhos animados há muitos anos (sim, sou paga para assistir animes hahaah) mas também, paralelamente, trabalho com terapias energéticas como Reiki, com Tarot e Medicina Tradicional Chinesa (Registro profissional de Terapeuta ABRATH- CRTH- BR 11574).
Como em uma novela mexicana vim parar aqui no México por conta de um grande amor e viver uma grande aventura a ¡La mexicana!
Sempre vou levar você a refletir sobre algo, mas as risadas também estão garantidas. Um cheiro pra ti!