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Estamos diagnosticando Autismo e TDAH demais?

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Estamos diagnosticando Autismo e TDAH demais?
Estamos diagnosticando Autismo e TDAH demais?

Nos últimos dias, ao ler uma matéria no The Times que questionava se o conceito de espectro do autismo estaria amplo demais, me peguei refletindo profundamente sobre o que vejo todos os dias dentro da sala de aula. Não como pesquisadora distante, mas como professora que convive com crianças reais, com histórias reais, com comportamentos que muitas vezes são rapidamente rotulados — e, talvez, nem sempre compreendidos. Fiquei me perguntando se estamos diagnosticando Autismo e TDAH demais?

Quero deixar algo muito claro desde o início: eu acredito no autismo e TDAH. São condições reais, bem documentadas e que precisam de diagnóstico, apoio e intervenção adequada. No entanto, o que tenho observado na prática levanta uma questão importante: será que estamos, em alguns casos, confundindo sinais de falta de conexão e limites com transtornos do neurodesenvolvimento?

O aumento dos diagnósticos de autismo e TDAH: o que está por trás disso?

Dentro das escolas, o número de crianças sendo encaminhadas para avaliação tem aumentado significativamente. Mas, ao olhar mais de perto, muitas dessas crianças não apresentam necessariamente um padrão consistente com um diagnóstico clínico. O que vemos, com frequência, são crianças emocionalmente desreguladas, irritadas, com baixa tolerância à frustração, dificuldade de esperar sua vez, de seguir instruções simples ou de lidar com limites.

E esse padrão não está restrito a um país específico.Ao longo da minha experiência como professora, já vi esse mesmo comportamento se repetir em diferentes países, culturas e realidades econômicas. Já observei crianças assim em escolas internacionais altamente estruturadas e também em contextos com menos recursos. Em famílias com rotinas rígidas e em famílias mais flexíveis. Em sistemas educacionais distintos, com abordagens completamente diferentes. E, ainda assim, o que mais se repete não é o diagnóstico. É a dificuldade de conexão.

O aumento dos diagnósticos: o que está por trás disso? – Imagem: Gamma

O que vejo na sala de aula (em diferentes países, a mesma realidade)

Um exemplo muito comum: a criança que não consegue permanecer sentada por alguns minutos, que interrompe constantemente, que reage com explosões emocionais quando contrariada. À primeira vista, pode-se pensar em TDAH. Mas, ao observar o contexto, muitas vezes encontramos uma rotina desorganizada, excesso de telas, sono irregular e pouca interação significativa com os pais.

Outro exemplo: crianças que evitam contato visual, que parecem “desconectadas” ou que não respondem prontamente a comandos. Isso pode levantar hipóteses relacionadas ao espectro do autismo. No entanto, em alguns casos, estamos diante de crianças que passaram grande parte do tempo expostas a telas, com pouca troca social real, pouca conversa olho no olho, ou seja, pouca experiência de interação humana consistente.

A ciência já aponta caminhos importantes nesse sentido. Estudos sobre desenvolvimento infantil mostram que a qualidade da interação entre pais e filhos é um dos fatores mais relevantes para o desenvolvimento emocional e social da criança. Segundo Daniel Siegel, a conexão emocional — momentos de presença, contato visual, escuta ativa — é essencial para a construção da autorregulação.

Crianças aprendem a se acalmar primeiro por meio do outro, para depois conseguirem fazer isso sozinhas. Além disso, pesquisas sobre uso de telas na infância indicam que a exposição excessiva, especialmente entre 2 e 7 anos, pode impactar habilidades como atenção, linguagem e regulação emocional. A American Academy of Pediatrics recomenda limites claros para o uso de telas justamente porque o desenvolvimento nessa fase depende de interação humana, não de estímulos passivos.

A interação entre pais e filhos é um dos fatores relevantes para o desenvolvimento – Imagem: Gamma

Comportamento ou pedido de conexão?

Na prática, o que vejo são crianças “gritando por atenção” — não necessariamente com palavras, mas com comportamentos. Crianças que fazem birras intensas, que desafiam constantemente, que parecem “fora de controle”. E, muitas vezes, por trás disso, existe uma ausência de conexão consistente com os pais. E aqui é importante esclarecer: conexão não significa passar o dia inteiro com a criança. Muitos pais trabalham, estão cansados, sobrecarregados — e isso é absolutamente compreensível. Mas a diferença está na qualidade, não na quantidade.

Quarenta minutos por dia podem ser transformadores

Um banho tranquilo, uma história antes de dormir, um momento de conversa olhando nos olhos, um carinho sem distrações, um tempo sem tela. Esses pequenos rituais constroem segurança emocional. Consequentemente, a segurança emocional reduz a ansiedade, melhora o comportamento e fortalece a capacidade da criança de se autorregular. Sem isso, a criança fica, de certa forma, “perdida”. E o comportamento que emerge pode ser facilmente interpretado como um transtorno, quando na verdade pode ser uma resposta a um ambiente pouco estruturado emocionalmente.

Pequenos rituais que criam conexão – Imagem: Gamma

Outro ponto que merece atenção é a crescente transferência de responsabilidades parentais para a escola. Professores estão sendo cada vez mais cobrados para ensinar habilidades que começam em casa: limites, respeito, regulação emocional, rotina.

No entanto, a escola não substitui a família — ela complementa. Quando essa base não está construída, a criança chega à escola com dificuldades que extrapolam o papel pedagógico. E o sistema, na tentativa de responder a isso, muitas vezes recorre ao diagnóstico como forma de explicar — e organizar — o comportamento. Mas nem todo comportamento desafiador é um transtorno. E nem toda dificuldade precisa de um rótulo clínico.

Isso não significa ignorar sinais importantes ou negligenciar diagnósticos reais. Pelo contrário: significa olhar com mais cuidado, com mais contexto, com mais responsabilidade. Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja apenas “qual é o diagnóstico dessa criança?”, mas também:
“Como está a rotina dela?”
“Como está a conexão com os pais?”
“Quanto tempo de tela ela tem por dia?”
“Ela está sendo vista, ou apenas gerenciada?”

Antes de rotular autismo e TDAH, precisamos reconectar

Como educadora, minha percepção é que estamos vivendo uma geração de pais exaustos — e isso impacta diretamente as crianças. Sem tempo, sem energia, sem suporte, muitos acabam recorrendo às telas ou flexibilizando limites. E isso não é falta de amor. É falta de recurso emocional. Mas é exatamente por isso que essa conversa precisa acontecer. Porque, antes de rotular, precisamos reconectar. Antes de diagnosticar, precisamos observar.

E, muitas vezes, antes de tratar a criança, precisamos apoiar os pais. Porque, no fim, independentemente do país, da cultura ou da condição econômica, o que uma criança mais precisa continua sendo a mesma coisa: Conexão.

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Isabella Martins

Ola! Meu nome é Isabella Martins e trabalho como Orientadora parental e como professora de educação infantil em Londres. Tenho três filhos adolescentes e moro fora do Brasil há dez anos. Já morei em Londres, Arábia Saudita, Singapura e agora retornei para Londres. Tenho a oportunidade de conhecer diversas culturas e o impacto delas na educação dos meus filhos e alunos. Sou apaixonada por educação e adoro explicar as etapas do desenvolvimento infantil. Faço atendimentos online em Português e Inglês. Acredito que criar relações de afeto melhoram as dinâmicas familiares e permite que tenhamos um lar onde a base seja o amor entre pais e filhos. Siga meu Instagram para mais informações: @isabellagmartins03 Vamos juntas?

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