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Perguntas difíceis de responder quando moramos fora

Última atualização do post:

Mulher pensando sobre as perguntas dificeis

Voltar ao Brasil para passar férias é quase sempre uma mistura de alegria, saudade, reencontros, compromissos e emoções. Queremos rever a família, encontrar os amigos, visitar lugares que fizeram parte da nossa história, comer aquilo que não encontramos no país onde vivemos e, muitas vezes, resolver burocracias ou realizar consultas médicas.

No entanto, entre um abraço e outro, também aparecem algumas perguntas difíceis para quem mora fora. Quando você volta é uma delas! E se essa pergunta vier acompanhada do complemento “de vez”, pode ser ainda mais difícil responder.

Quem pergunta talvez esteja apenas demonstrando saudade. A frase pode significar “gostaria que você estivesse mais perto” ou “sua presença faz falta”. Entretanto, para quem construiu parte da vida em outro país, a resposta raramente é simples.

Afinal, voltar quando? Para passar férias? Visitar? Cuidar dos pais? Para morar novamente no Brasil? E o que significa voltar “de vez” quando uma parte da nossa história já pertence a outro lugar?

Recebendo a família que mora longe – Imagem: Canva

Perguntas simples, respostas nem sempre possíveis

Embora as perguntas: “Você pretende continuar morando lá?” “Seus filhos vão voltar para o Brasil?” “Você prefere viver lá ou aqui?” “Valeu a pena mudar de país?” “Já se acostumou?” pareçam simples e objetivas, elas exigem uma série de negociações e reorganizações na nossa vida.

Talvez a resposta mais verdadeira seja: “Ainda não sei”. Porém, conviver com dúvidas e incertezas também não é fácil.

Aqui você encontra um texto com expectativas e realidade sobre imigrar.

Você não sente falta do Brasil?

Essa é outra pergunta frequente e quase impossível de responder apenas com “sim” ou “não”.

É claro que sentimos falta. Podemos sentir saudade da família, dos amigos, da língua, da comida, do jeito brasileiro de conversar, das festas, do clima e até de pequenas coisas que antes passavam despercebidas. Eu sinto muita falta!

Além disso, é principalmente quando estou no Brasil, vivendo experiências que não fazem mais parte do meu cotidiano, que percebo o quanto me faz falta o convívio com as minhas irmãs ou ter tempo para conversar com os meus pais sobre suas rotinas.

Contudo, sentir saudade não significa necessariamente querer voltar.

Podemos sentir falta do nosso lugar de origem e, ainda assim, estar felizes com a vida que construímos no exterior. Podemos gostar do país que nos recebeu e continuar profundamente ligadas ao país de onde viemos.

A pergunta se torna difícil porque, algumas vezes, parece esconder uma prova de amor: se você sente saudade, deveria voltar; se não pretende voltar, talvez não sinta tanta falta assim.

Você prefere viver lá ou aqui?

Comparar os dois países também pode nos colocar em uma posição desconfortável. É como se precisássemos escolher um vencedor ou decidir qual lugar é melhor.

Podemos valorizar a segurança, a organização ou as oportunidades encontradas no novo país e, ao mesmo tempo, sentir falta da espontaneidade, dos afetos e da familiaridade que encontramos no Brasil.

Por isso, responder pode provocar um conflito de lealdade. Se dizemos que preferimos viver fora, corremos o risco de parecer ingratas. Por outro lado, se falamos sobre as dificuldades que enfrentamos mundo afora, provavelmente ouviremos: “Então, por que você não volta?”. Como se voltar dependesse apenas da nossa vontade e da compra de uma passagem.

Trouxe um relato de quem voltou a morar no Brasil .

E os seus filhos, vão voltar?

Quando temos filhos, as perguntas também se estendem a eles: “Eles ainda falam português?” “Eles se sentem brasileiros?” “Onde vão fazer faculdade?” “Pretendem morar no Brasil?”

Meus filhos nasceram no Brasil, falam português em casa e gostam de visitar o país. Entretanto, sinceramente, não sei dizer se algum dia voltarão a morar lá. Hoje, eu diria que não. Não porque não gostem do Brasil, mas porque estão construindo uma vida na Itália.

Além disso, tenho a sensação de que, depois de mudar uma vez de país, o mundo fica menor para eles. Talvez escolham viver no Brasil, na Itália ou em qualquer outro lugar.

Envelhecimento dos pais – Imagem: Canva

Você não pensa nos seus pais envelhecendo?

Poucas perguntas despertam tanta culpa quanto essa. É evidente que pensamos. Quem mora fora sabe que a distância ganha outro significado quando os pais envelhecem, alguém adoece ou percebemos que estamos perdendo momentos que não poderão ser repetidos.

Mas como responder a essa pergunta rapidamente durante um almoço de família? Trata-se de uma preocupação real, que envolve amor, responsabilidade, impotência e decisões muito difíceis.

Mesmo que seja feita sem essa intenção, a pergunta pode soar como uma acusação ou cobrança. Ainda assim, morar longe não significa deixar de se preocupar ou amar menos. Podemos encontrar outras formas de nos fazermos presentes!

Por que você não vem mais vezes?

Por que você nao vem mais vezes ? ou então: Por que você não fica mais tempo? Essas perguntas podem tocar em questões financeiras, profissionais e familiares que nem sempre desejamos compartilhar.

Viajar custa caro. É preciso conciliar férias, trabalho, calendário escolar, disponibilidade dos filhos e compromissos no país onde vivemos. Além disso, uma viagem ao Brasil pode envolver passagens para toda a família, deslocamentos internos e semanas tentando encontrar muitas pessoas em pouco tempo.

Para algumas famílias, a viagem ao Brasil ja é uma despesa fixa no orçamento. Já aquelas que se mudaram devido a uma transferência profissional podem ter, como benefício da empresa, uma passagem anual para visitar a família. No entanto, essa não é a realidade da maioria.

As férias de quem mora fora, portanto, raramente são apenas férias. Queremos estar com todos, resolver pendências, visitar parentes, ir ao médico, organizar documentos e atender às expectativas das pessoas queridas. Voltamos felizes com os encontros, mas também cansadas.

Contudo, quando alguém pergunta por que não viemos antes ou por que ficaremos tão pouco, talvez esteja expressando saudade e o desejo de aproveitar mais a nossa presença. Para quem ouve, porém, a frase pode despertar a sensação de que todo o esforço feito para estar ali ainda não foi suficiente.

Conversas sobre a vida mundo afora – Imagem: Canva

O que perguntar a quem mudou de país?

Em vez de “Quando você volta de vez?”, poderíamos perguntar: “Como você se sente com a vida que construiu lá?” “Do que você mais sente falta?” “O que mudou em você desde que foi embora?” “Como é, para você, viver entre dois países?”

As melhores perguntas são aquelas que não exigem uma decisão imediata nem nos obrigam a defender nossas escolhas. Pelo contrário, elas demonstram interesse e abrem espaço para falarmos sobre as alegrias, as saudades e as contradições da vida no exterior.

E, quando alguém nos perguntar novamente “Quando você volta?”, talvez possamos responder com sinceridade: — Ainda não sei. Mas isso não significa que eu tenha esquecido de onde vim.

Agora me conte: para você, quais são as perguntas mais difíceis de responder?

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Carla Bottino

Olá! Sou Carla Bottino, psicóloga, terapeuta de família e muito curiosa. Sempre gostei de ler sobre a cultura e em especial, sobre os hábitos, costumes e desafios de quem vive em outros países. Sou carioca, de descendência italiana e em 2017 embarquei para uma aventura ( que deveria ser de 8 meses) do outro lado do Oceano Atlântico, em Pádua na Italia. Sou mãe de filhos grandes – Mariana de 21 e Joao de 17 anos e nas minhas redes sociais conto sobre a vida nova no velho continente e trago algumas das minhas reflexões sobre os processos de mudança e adaptação, pertencimento e empreendedorismo mundo afora.

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