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Por que a rede de apoio dos pais é tão importante fora do país?

Última atualização do post:

Os desafios de educar filhos adolescentes
O desafio de educar filhos adolescentes fora do pais de origem - Imagem: Canva

Educar filhos fora do país de origem é uma experiência que nos faz rever muitas certezas.

Antes de seguir, vale abrir um pequeno parêntese para lembrar que essa experiência pode variar bastante dependendo de algumas circunstâncias. Por exemplo: se os pais se mudaram já com filhos ou se as crianças nasceram no novo país; se o casal tem a mesma nacionalidade ou se é uma família intercultural; e ainda se estamos falando de uma família imigrante — que se muda sem previsão de retorno — ou de uma família expatriada, que vive mudanças temporárias ao longo da carreira.

Essas variáveis influenciam profundamente a forma como pais e filhos vivenciam a adaptação cultural. Ainda assim, há algo que parece ser comum à maioria das famílias que vivem essa experiência: a necessidade de construir uma nova rede de apoio.

Quando me mudei do Brasil para a Itália, imaginei que as maiores diferenças apareceriam na língua, na comida ou nos hábitos do dia a dia. No entanto, percebi que algumas das mudanças mais marcantes estavam na forma como as famílias se relacionavam entre si — e também na maneira como eu poderia reconstruir a minha própria rede de apoio.

Criar filhos no exterior: quando a rede de apoio muda

No Brasil, muitas famílias contam naturalmente com uma rede de apoio. Avós, tios, amigos, vizinhos e pais de colegas da escola fazem parte do cotidiano. Mesmo quando não percebemos, essas relações ajudam a sustentar a rotina familiar.

Quando nos mudamos para outro país, muitas dessas referências desaparecem de uma vez só. Os filhos precisam se adaptar a uma nova língua, a uma nova escola e a uma nova cultura. Ao mesmo tempo, os pais também passam por um processo semelhante — embora muitas vezes esse processo seja menos visível.

É justamente nesse momento que percebemos o quanto a rede de apoio faz falta. Ter alguém com quem conversar, trocar experiências ou simplesmente perguntar “isso é comum aqui?” pode fazer uma enorme diferença na forma como atravessamos os desafios da parentalidade no exterior.

Autonomia e independência são incentivadas desde muito cedo – Imagem: Unsplash

Os grupos de pais na escola: diferenças entre Brasil e Itália

Escrevi aqui sobre o sistema de ensino italiano e os ritos de passagem.

Duas coisas que me chamaram a atenção quando meus filhos começaram a frequentar a escola na Itália – a autonomia e independência das crianças, incentivadas desde muito cedo e os grupos de pais.

As crianças vão para a escola sozinhas desde muito pequenas e além de não encontrar os pais na porta da escola, os grupos de pais são muito diferentes daqueles que eu conhecia no Brasil

Por exemplo, no Brasil, os grupos de WhatsApp das turmas costumam ser bastante ativos. Muitas vezes eles acabam se tornando também um espaço de convivência entre as famílias. Mães trocam dúvidas sobre tarefas escolares, comentam acontecimentos da escola, pedem indicações de médicos ou organizam encontros. Não raro, amizades duradouras nascem nesses grupos.

Por outro lado, na Itália, a dinâmica costuma ser diferente. Os grupos existem — às vezes no WhatsApp, às vezes em listas de e-mail — mas são usados de forma muito mais objetiva. Servem basicamente para tratar de assuntos coletivos da turma ou da escola. Questões particulares quase nunca aparecem ali.

Não estou dizendo que um modelo seja melhor que o outro. Na verdade, imaginei que, através desses grupos da escola, eu teria a oportunidade de me aproximar de outras mães e aprender um pouco mais sobre os usos e costumes locais.

O que os adolescentes italianos fazem para se divertir

Neste contexto, uma pergunta que muitos pais fazem quando chegam a um novo país é bastante simples: afinal, o que os adolescentes fazem para se divertir aqui?

Na prática, percebo que muitas atividades são bastante parecidas em qualquer lugar do mundo. Os adolescentes italianos vão ao cinema, passeiam pelo centro da cidade, encontram amigos para tomar sorvete, comer pizza ou hambúrguer. Alguns frequentam centros comerciais, enquanto outros preferem sentar em um café para conversar. Assim como acontece em muitos países, eles também passam bastante tempo no celular, assistem séries e organizam encontros na casa de amigos. Ou seja, apesar das diferenças culturais, os programas dos adolescentes são surpreendentemente semelhantes.

Ainda assim, algumas situações podem causar certo estranhamento para pais estrangeiros.

Festa estranha: quando a cultura nos surpreende

Sabe aquela música que fala de uma “festa estranha com gente esquisita”? Pois bem, lembrei de uma vez em que a minha filha me pediu para levá-la a uma terma, onde um grupo de amigos iria passar algumas horas na piscina de um hotel quatro estrelas, das nove da noite até a uma da madrugada. Confesso que, naquele momento, não soube muito bem o que responder.

Na minha visão de mundo — construída durante anos vivendo no Rio de Janeiro — terma não parecia ser exatamente um lugar para uma adolescente (de 15 anos) passar a noite de sábado. Eu tinha uma imagem completamente diferente desse tipo de espaço. Depois de pesquisar um pouco, percebi que minha visão estava bastante limitada pela minha própria experiência cultural.

Os italianos adoram relaxar nas termas, de dia ou de noite- Imagem: Unsplash

As termas na cultura italiana

Na verdade as termas fazem parte da cultura italiana há milhares de anos. Durante o Império Romano, os complexos termais eram muito mais do que locais para banho. Eram espaços de convivência social, extremamente importantes. Ali as pessoas conversavam, discutiam política, faziam negócios e encontravam amigos. As termas funcionavam como verdadeiros centros sociais da vida urbana. De certa forma, esse espírito de convivência continua presente até hoje. Saiba mais aqui.

Muitos hotéis oferecem acesso às piscinas termais, saunas e áreas de relaxamento. Famílias, casais e grupos de amigos frequentam esses espaços simplesmente para descansar, conversar e passar algumas horas juntos. Perceber isso foi uma pequena lição sobre como nossas referências culturais, moldam a forma como interpretamos o mundo.

O consumo de álcool entre adolescentes

Outro ponto que pode causar estranhamento para alguns pais estrangeiros diz respeito ao consumo de bebidas alcoólicas.

Na Itália, a lei permite o consumo de álcool apenas a partir dos 18 anos. No entanto, a adolescência é justamente a fase das descobertas e das experimentações. Aprendi que muitos adolescentes italianos experimentam bebida alcoólica aos 14 ou 15 anos — muitas vezes com o conhecimento ou até com o consentimento dos pais.

Uma vez, por exemplo, minha filha foi dormir na casa de uma colega após uma festa de Halloween. A mãe anfitriã — que era a única que eu conhecia — havia comprado 10 garrafas de cerveja para o grupo de adolescentes. Não sei se eram cervejas com álcool ou sem e, naquele momento percebi algo importante: trata-se de uma outra cultura. Não posso analisar essas situações apenas a partir das referências que trago da minha própria história.

A adolescência é a fase de dar autonomia e criar confiança – Imagem: Unsplash

A adolescência e o desafio de confiar

Diante de todas essas diferenças culturais, percebi que uma das tarefas mais importantes para mim seria aprender a confiar nos meus filhos.

A adolescência é justamente o momento em que precisamos dar mais autonomia aos jovens – o que pode gerar muita insegurança quando não conhecemos bem o contexto no qual eles estão inseridos. E, quando ainda estamos aprendendo os códigos culturais daquele novo país, essa confiança nem sempre é imediata. Ter outros pais com quem conversar ajudaria a entender o que é considerado normal — no sentido usual — entre os adolescentes daquela cultura.

Como ainda não tenho essa rede de apoio plenamente construída, estabeleci alguns combinados com meus filhos. Talvez eu pareça rígida para alguns e permissiva para outros. Mas, por enquanto, encontramos um equilíbrio que parece funcionar.

No fundo, criar filhos em um contexto migratório significa justamente isso: aprender junto com eles como funciona o mundo ao nosso redor.

Leia aqui sobre estratégias de parentalidade.

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Carla Bottino

Olá! Sou Carla Bottino, psicóloga, terapeuta de família e muito curiosa. Sempre gostei de ler sobre a cultura e em especial, sobre os hábitos, costumes e desafios de quem vive em outros países. Sou carioca, de descendência italiana e em 2017 embarquei para uma aventura ( que deveria ser de 8 meses) do outro lado do Oceano Atlântico, em Pádua na Italia. Sou mãe de filhos grandes – Mariana de 21 e Joao de 17 anos e nas minhas redes sociais conto sobre a vida nova no velho continente e trago algumas das minhas reflexões sobre os processos de mudança e adaptação, pertencimento e empreendedorismo mundo afora.

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