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Nem toda mudança cabe na mala

Última atualização do post:

31anos_aniversario_expatriada

Aos 31 anos, percebi que as maiores transformações da minha vida apareceram, silenciosamente, na maneira como passei a escolher as roupas que vestem a mulher que me tornei.

Dia 17 de agosto de 2026 completei 31 anos. Entre todas as formas possíveis de medir o tempo, descobri que a mais curiosa sempre esteve pendurada no meu guarda-roupa.

Da chegada na Europa, aos dias de hoje. A essência permanece, a comunicação muda – Imagem: Arquivo Pessoal

Entretanto, quando olho para as minhas roupas hoje, consigo reconhecer diferentes versões de mim: a menina que sonhava em ganhar o mundo, a mulher que queria construir uma carreira, a pessoa que passou por diferentes fases e, principalmente, aquela que atravessou um oceano e precisou reconstruir a própria identidade em outro país.

Porém, nenhuma dessas versões desapareceu completamente. Elas continuam em algumas fotografias, em algumas memórias e, curiosamente, em algumas peças que ainda estão no meu armário. Outras peças ficaram pelo caminho.

Quando a roupa guarda memórias

Olhar para o meu guarda-roupa hoje é quase como abrir uma caixa de lembranças. Algumas peças me transportam para momentos muito específicos. Outras me fazem lembrar objetivos que já não fazem sentido, pessoas que passaram pela minha vida ou fases, onde eu tentava caber em lugares que nunca foram feitos para mim.

A roupa tem essa capacidade curiosa de guardar memória. Uma peça pode carregar uma viagem, um trabalho, uma mudança, uma insegurança ou uma versão nossa que já não existe da mesma maneira. Ela permanece mesmo quando a pessoa que a escolheu já mudou.

Quando mudar de país também muda a forma de se vestir

Morar fora transformou muito mais do que o meu endereço. Mudou a forma como observo o mundo e, inevitavelmente, a maneira como me posiciono dentro dele.

E toda mudança exige adaptação. Algumas acontecem de forma bastante prática, como aprender uma nova rotina, lidar com outro clima, outros hábitos, outra língua e outras referências culturais. Outras acontecem de maneira muito mais silenciosa, quando começamos a perceber que determinadas escolhas já não combinam tanto com a pessoa que estamos nos tornando.

Foi assim que aconteceu comigo e com a roupa.

Durante muito tempo, minhas roupas tentavam comunicar uma imagem que eu acreditava precisar construir. Algumas eram escolhidas porque estavam em alta. Outras, porque pareciam transmitir uma ideia de sucesso, criatividade ou maturidade que eu ainda buscava alcançar. Eu me vestia para aquilo que imaginava que deveria parecer.

E acho que isso acontece com mais gente do que nós admitimos.

Existe uma fase da vida em que experimentamos diferentes versões de nós mesmos também através da roupa. Testamos estilos, compramos peças que parecem incríveis em outras pessoas, seguimos referências e tentamos entender qual imagem queremos construir. Algumas dessas experiências funcionam. Outras simplesmente não têm nada a ver conosco, embora demore um pouco para percebermos.

Mudar de país acelerou esse processo para mim.

Colocar em uma mala de 23kg tudo o que te representa nem sempre é possível – Imagem: Canva

Descobrindo novas referências

Quando você recomeça em um lugar onde ninguém conhece a sua história, você também precisa descobrir quem é, quando todas aquelas referências que ajudavam a te definir, ficam um pouco mais distantes. É curioso perceber como o olhar dos outros influencia as nossas escolhas, mesmo quando acreditamos estar escolhendo apenas por nós mesmas.

Longe do lugar onde cresci, comecei a observar mais. As pessoas se vestiam de outra maneira, as referências eram diferentes e algumas coisas que eu considerava óbvias, simplesmente não eram. Ao mesmo tempo, comecei a entender melhor aquilo que realmente fazia sentido para mim.

E foi aí que aconteceu uma espécie de redescoberta.

Percebi que algumas roupas estavam ali para sustentar uma personagem que eu já não precisava interpretar. Outras continuavam porque, mesmo depois de tantas mudanças, ainda diziam alguma coisa sobre mim.

Mudar de país também me ensinou a selecionar o que merece continuar comigo. A bagagem fica menor, mas a consciência costuma crescer.

Estilo mais consciente

Foi nesse percurso que meu guarda-roupa deixou de reunir personagens e começou a acompanhar quem eu realmente estava me tornando. Passei a escolher roupas com mais intenção, não porque meu estilo tenha ficado rígido ou completamente definido, mas porque comecei a entender melhor o que quero comunicar.

Hoje enxergo o vestir como uma extensão daquilo que penso, do trabalho que construo e da forma como escolho ocupar o mundo. A roupa continua sendo comunicação, mas sinto que ela comunica muito mais a minha essência do que a necessidade de corresponder a alguma expectativa.

Existe uma tranquilidade nisso.

Aos poucos, fui entendendo que não preciso parecer mais criativa, mais interessante, mais sofisticada ou mais bem-sucedida através da roupa. Posso simplesmente escolher aquilo que faz sentido para mim.

Meu estilo envelheceu comigo. Ainda bem.

Aos vinte e poucos anos, eu queria parecer interessante. Hoje, eu quero parecer eu.

Antes eu comprava roupa para ocasiões. Hoje, compro roupa para a vida.

Antes seguia tendências. Hoje, procuro permanência.

Antes buscava aprovação. Hoje, busco coerência.

Não digo isso como se tivesse finalmente descoberto uma fórmula definitiva para me vestir, ainda gosto de tendências, ainda me apaixono por uma peça que provavelmente não precisava comprar e ainda existem dias em que o look simplesmente não acontece.

A diferença é que hoje eu consigo perceber melhor quando estou escolhendo algo porque realmente gosto e quando estou tentando preencher uma expectativa.

O estilo não precisa ser uma definição

Aos 31, gosto mais da ideia de repertório do que da ideia de um estilo perfeitamente definido.

Meu estilo não precisa ser uma caixa onde tudo precisa caber. Ele pode mudar, ganhar novas referências, incorporar coisas inesperadas e até contradizer escolhas anteriores. Talvez essa seja uma das partes mais interessantes de amadurecer: entender que coerência não significa permanecer igual. Percebo essas mudanças quando olho para as roupas que escolhi ao longo dos últimos anos.

Da chegada a Portugal aos 31: quatro anos de mudanças, referências e versões de mim – Imagem: Arquivo Pessoal

A roupa não muda quem somos, mas registra as fases que atravessamos.

Algumas peças permanecem porque continuam fazendo sentido. Outras cumprem o papel de lembrar quem fomos em determinado momento da vida. E existem aquelas que simplesmente perderam o lugar que tinham, mesmo que continuem bonitas.

Olhar para o meu guarda-roupa hoje é perceber que existem lembranças, escolhas, mudanças e até alguns arrependimentos. Todos contam um pedaço da minha história.

E, curiosamente, já não sinto vontade de apagar esses capítulos.

Durante muito tempo, talvez eu tivesse vontade de olhar para uma roupa antiga e pensar que aquilo não me representava mais. Hoje consigo olhar de outra maneira. Aquela peça representou alguma coisa em determinado momento. Se ela já não faz sentido, tudo bem. Ela cumpriu o seu papel.

Acho que existe algo muito bonito em permitir que o guarda-roupa acompanhe essas mudanças sem transformar cada nova fase em uma tentativa de começar do zero.

Ainda bem que meu estilo não está pronto

Aos 31 anos, descobri que estilo não é encontrar uma versão definitiva de nós mesmos. Ele acompanha os movimentos da vida, amadurece junto com as experiências e encontra novas formas de existir sem precisar abandonar completamente o que veio antes.

A gente muda de trabalho, de cidade, de país, de rotina, de referências e até de ideia sobre quem gostaríamos de ser. Seria curioso esperar que o nosso guarda-roupa permanecesse exatamente igual, enquanto todo o resto se transforma.

Hoje entendo que crescer também significa permitir que as roupas cresçam com a gente. Abrir espaço para novas versões sem sentir culpa por deixar outras para trás.

Algumas roupas continuam servindo no corpo, mas deixam de servir na identidade. E reconhecer isso talvez seja um dos sinais mais discretos do amadurecimento.

Com 31, ainda estou descobrindo muita coisa sobre quem sou e sobre quem quero me tornar. Talvez seja justamente por isso que eu não queira que meu estilo seja definitivo.

Quero continuar mudando.

Quero continuar encontrando novas referências, experimentando, errando, acertando e olhando para o meu armário daqui a alguns anos com a mesma sensação de reconhecer ali um pouco da mulher que fui.

Vestir uma vida que faça sentido por dentro

Se existe uma tendência que eu gostaria de levar para os próximos anos, é esta: vestir uma vida que faça sentido por dentro.

Porque nem toda mudança cabe na mala. Algumas encontram um lugar muito mais permanente, no guarda-roupa que construímos para acompanhar quem estamos nos tornando.

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Vitória Helena

Oi mundo, eu sou a Vitória Helena. Estrategista de Marca Pessoal e na constante busca em entender o "porquê" por trás do consumo. Caiçara de SP e a viver em Portugal desde 2022, eu analiso como o comportamento e a moda impactam o nosso dia a dia, traduzindo essas análises em práticas para quem busca um posicionamento real. Acredito na comunicação leve que ensina e na imagem que sustenta a sua verdade. O meu foco é ajudar mulheres das áreas da Saúde, Wellness e Empresárias da Moda a construírem um posicionamento digital verdadeiro, transformando conhecimento em autoridade através de conteúdos únicos e intencionais.
Saiba mais sobre o meu trabalho em www.vitoriahelena.com.br

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