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Aprendizados ao morar fora – o que é importante saber

Última atualização do post:

Ser turista é muito diferente de ser imigrante.
Ser turista é muito diferente de ser imigrante - Imagem: arquivo pessoal

Mudar de país é muito mais do que atravessar uma fronteira. Neste texto eu escrevi sobre os aprendizados ao morar fora , e hoje escrevo sobre o que teria sido importante saber, antes dessa mudança.

Além disso, aqui tem um texto sobre o que a Isabella Martins também alerta sobre o que seria importante saber antes de se tornar expatriada.

Naquela época, quando decidi deixar o Brasil, passei meses organizando documentos, pesquisando escolas para os meus filhos, procurando uma casa, entendendo como funcionava o sistema de saúde e tentando imaginar como seria a nossa nova vida na Itália.

Com isso, planejei a mudança financeira, logística, escolhemos o que levar e arrumamos as malas.

Ainda assim, olhando para trás, percebo que deixei de planejar justamente aquilo que mais influenciaria a nossa adaptação: o aspecto emocional.

E, com frequência as pessoas me dizem: — “Que chique! Você mora na Itália.”

Ter o auto-conhecimento de quem você está se tornando é o que te faz crescer morando fora.
Lago de Garda, um cenário perfeito para um almoço- Imagem: Arquivo Pessoal

Tirando o romantismo

De certa forma isso é verdade. Morar em um país bonito, seguro e cheio de história é um privilégio enorme. Gosto dos passeios pelas pequenas cidades italianas, dos almoços à beira do Lago di Garda e da possibilidade de proporcionar experiências incríveis aos meus filhos.

Porém, com o tempo eu percecebi que a imigração nunca foi apenas sobre o lugar onde moro. Ela sempre foi, sobretudo, sobre quem eu me tornei ao longo dessa caminhada.

E foi justamente essa percepção que me fez escrever um post no Instagram para refletir sobre algumas coisas importantes que são pouco discutidas. Algumas mulheres se identificaram e deixaram seu depoimentos, respondendo a mesma pergunta e deixando ali os seus aprendizados.

Ao ler cada comentário, percebi que existe uma conversa que exercitamos pouco: ninguém nos prepara para a parte invisível da imigração.

Ninguém nos conta que aprender o idioma é apenas o começo

Uma das primeiras preocupações de quem vai morar fora costuma ser a língua. E ela realmente importa, pois, aprendi na prática que saber inglês não significa conseguir viver em qualquer país.

Na Itália, por exemplo, falar italiano faz toda a diferença. E mesmo depois de estudar e alcançar um bom nível, ainda hoje encontro expressões, piadas e referências culturais que escapam da minha compreensão.

E talvez seja ai que muitas pessoas se surpreendam. Aprender um novo idioma não é apenas decorar palavras. É aprender outra forma de pensar, de fazer humor, de demonstrar afeto e até de discordar. A fluência não nasce apenas da prática cotidiana. Ela exige estudo, exposição e, principalmente, humildade para continuar aprendendo.

Adaptação não se mede em anos

Contudo, superada a barreira da língua, surge uma pergunta que todo imigrante já ouviu: “Você já se adaptou?” Como se isso tivesse uma data para acontecer.

Entretanto, hoje acredito que adaptação tem muito menos relação com o tempo de permanência e muito mais com o quanto conseguimos construir pertencimento. É por isso que participar de grupos de brasileiros pode ser tão importante quanto fazer amigos locais. Os brasileiros nos ajudam a matar a saudade. Os moradores do país nos ajudam a construir uma nova vida.

Um dos aprendizados ao morar fora é que a adaptação melhora quando você começa a se sentir parte daquele país.
Os amigos brasileiros nos ajudam a matar a saudade – Imagem: Canva

Aprendizados ao morar fora- equilibrando a balança

Uma amiga, seguidora, escreveu naquele post algo que ficou comigo: “Seria importante ter tido uma conversa franca e acolhedora para saber que eu não estava sozinha. Que não seria um mar de rosas, mas que descobriria em mim potencialidades que nem imaginava.”

Talvez seja exatamente isso. Adaptar-se não significa deixar de sentir saudade. Significa conseguir fazer espaço para que a saudade e a nova vida convivam.

Os documentos não apagam quem somos

Outra ilusão comum é imaginar que a cidadania resolverá tudo. De fato, ela abre portas, facilita processos, mas não muda a forma como somos percebidos.

Mesmo tendo dupla cidadania, continuo carregando meu sotaque, minha história, costumes e a maneira brasileira de estar no mundo. Seremos sempre estangeiros para os olhos dos nativos!

Por exemplo, uma psicóloga comentou algo muito bonito no referido post: “Nossa verdadeira origem não pode ser apagada. Faz parte de um processo saudável no exterior aceitar quem somos.” E essa frase resume muito do que aprendi. Não precisamos esconder nossa origem para pertencermos. Pertencer não exige apagar a própria identidade.

E portanto, a maior mudança acontece dentro de nós !

Recomeçar não significa apagar tudo o que vivemos.

Entre todos os comentários, um me chamou especialmente a atenção. “Gostaria que tivessem me contado que eu não vou começar do zero. Minha bagagem, formação e vivências importam e eu também tenho muito para ensinar.” Que verdade poderosa.

Durante muito tempo ouvimos que precisamos “recomeçar do zero”. Hoje penso diferente e nesse processo não significa apagar tudo o que vivemos, e sim reorganizar aquilo que já somos para caber em um novo contexto. Nossa experiência continua existindo. Nosso conhecimento continua valioso e a nossa história continua sendo parte de nós.

O planejamento emocional merece o mesmo espaço que o financeiro

Embora, depois de tantos aprendizados, existe uma dica que eu deixo para quem está se preparando para uma mudança internacional. Eu certamente falaria sobre documentos, escolas, moradia e reserva financeira, mas acrescentaria um item que quase nunca aparece nas listas – o planejamento emocional.

E esse é um assunto que, provavelmente, não vai aparecer nas várias listas de coisas a fazer antes de mudar de pais, ele tem se revelado um aspecto fundamental. Haverá dias de entusiasmo, dias de culpa, dias de solidão, dias em que você vai se perguntar se tomou a decisão certa. Isso faz parte da experiência.

“Não basta força de vontade. É preciso muita resiliência.” e eu concordo plenamente.

A imigração não testa apenas nossa capacidade de resolver problemas. Ela nos convida, todos os dias, a reconstruir nossa identidade.

Saber lidar com os erros é um dos importantes aprendizados ao morar fora.
Pádua, a cidade onde moro, é um museu a céu aberto – Imagem: Arquivo Pessoal

Um conselho precioso sobre os aprendizados ao morar fora

Se eu pudesse voltar no tempo e conversar com a Carla que fazia as malas para deixar o Brasil, talvez dissesse apenas isto: você vai sentir saudade, irá errar e vai se sentir estrangeira. Vai demorar mais do que imaginava para entender como tudo funciona. Em alguns momentos, vai achar que está andando para trás. Mas também vai descobrir uma força que ainda não conhece.

Por outro lado, você vai construir novas amizades. Vai perceber que pertence a mais de um lugar. E, principalmente, vai entender que mudar de país não transforma apenas o endereço. Transforma a maneira como enxergamos o mundo — e a nós mesmas.

Por fim, hoje entendo que talvez ninguém tivesse me contado tudo isso. Algumas coisas só podem ser compreendidas vivendo. Mas, se este texto conseguir preparar outra mulher para enfrentar a parte invisivel da imigração com um pouco mais de acolhimento e menos culpa, talvez ele já tenha cumprido o seu papel.

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Carla Bottino

Olá! Sou Carla Bottino, psicóloga, terapeuta de família e muito curiosa. Sempre gostei de ler sobre a cultura e em especial, sobre os hábitos, costumes e desafios de quem vive em outros países. Sou carioca, de descendência italiana e em 2017 embarquei para uma aventura ( que deveria ser de 8 meses) do outro lado do Oceano Atlântico, em Pádua na Italia. Sou mãe de filhos grandes – Mariana de 21 e Joao de 17 anos e nas minhas redes sociais conto sobre a vida nova no velho continente e trago algumas das minhas reflexões sobre os processos de mudança e adaptação, pertencimento e empreendedorismo mundo afora.

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